Falta de imaginação sociológica

Eu tenho pra mim que poucas pessoas são intencionalmente “más”, no sentido mais primário do termo, como as que intencionam infligir mal aos outros para o prazer ou benefício próprio. Claro que elas existem, mas acho que são minoria. Ainda mais quando se trata de sociedade e da defesa de ações, mais ou menos genéricas, que afetam desconhecidos por caminhos, muitas vezes, também desconhecidos. A maioria das posições defendidas no debate público se dão pela confiança de que aquela é a melhor solução social, ou pela mera repetição de crenças profundamente arraigadas, não questionadas dentro de si, ou por não enxergar a vida do outro, ou por não compreender os mecanismos sociais que a influenciam e nem como esses se relacionam com seus próprios privilégios, benefícios, opressões.
O rico investidor entrevistado nessa matéria é um bom exemplo. Eu considero honestas as suas respostas, e acredito até na sua boa índole. Acontece que seu pensamento (profundamente disseminado no senso comum) é de uma ingenuidade que tem efeitos perversos no tecido social. Ele crê que atrocidades cometidas em nome de lucro para investidores são uma exceção à regra. Uma regra, por sua vez, de investidores e empresários éticos, responsáveis, compassivos, que por alguma razão misteriosa irão fazer mais do que a lei determina. Ele mesmo diz que saiu da Estácio de Sá porque não concordava com essa busca de lucro prejudicial. De acordo com ele, “o mercado financeiro quer resultados no curto prazo e muitas vezes isso fere ‘um pouquinho’ a qualidade” e “quem acabou com o Fies foram os próprios donos das instituições. Em vez de fazerem o Fies cumprir sua função social, de atender o aluno que não podia pagar, eles ofereceram a quem podia pagar.”
Ignorando por um segundo que a regra do capitalismo é unicamente o lucro, e supondo que a maioria dos empresários subitamente pense no bem comum, qualquer construção de uma sociedade deve partir da pergunta: o que acontecerá quando eventualmente esse não for mais o caso? Quando eles forem substituídos por seus filhos ou por outros empresários, que eventualmente queiram buscar mais lucro e se lixar pro bem comum? Ou quando o cenário econômico mudar e de repente não der mais pra ser tão “bonzinho”? A sociedade não pode estar sujeita ao bom humor ou à ética variável de uns poucos. E também não pode ficar sujeita à capacidade pífia de consumidores precarizados e empobrecidos em “boicotar” empresas “antiéticas”.
É pra isso que existem leis, que, por mais imperfeitas que possam ser, são construídas coletivamente, baseadas na luta e nos acontecimentos históricos, necessárias para estabelecer o mínimo de dignidade aos trabalhadores, defender a parte fraca e garantir que o destino de milhares de pessoas não fique na mão da boa vontade, índole ou humor de uns poucos. Afinal, de acordo com os próprios ideólogos capitalistas, se a “natureza” do ser humano é ser ruim, é uma inconsistência lógica e desonestidade intelectual defender que a ética individual dos mais abastados irá nos salvar. Não é difícil entender isso, mas parece que é cada vez mais necessário explicar.

FGV: hipocrisia, poder e dinheiro

A FGV (Estado Mínimo, There’s no Free Lunch, R$3500 reais de mensalidade) recebe por meio de suas consultorias e repassa para os seus pejotizados inúmeras emendas parlamentares e recursos públicos que somam mais de R$280 milhões, apenas nesse ano. Muito mais do que o valor destinado às universidades federais e estaduais, que estão paralisadas por, supostamente, vejam só, falta de recursos! Enquanto professores da UERJ fazem fila para a cesta básica e viram motoristas de uber, os professores da ilibada FGV dão discursos na globonews sobre austeridade, sobre apertar o cinto e cortar na carne. As licitações são dispensadas, porque a FGV é uma instituição de ‘notório saber’. Atentem à justificativa da emenda: FGV é uma reconhecida instituição, blablabla, DEFENSORA DA IDEOLOGIA DA DESIGUALDADE PELO MÉRITO.

Essa situação já é assim de longa data (lembro de um amigo da UFRJ que foi o primeiro a me falar que isso era assim a anos). A prática e promiscuidade com recursos públicos é tão tradicional quanto essa casa de notório elitismo.

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(Post por David Deccache)

Ontem escrevi um post sobre as emendas que foram apresentadas na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara em favor da Fundação Getúlio Vargas, porém não detalhei e nem apresentei toda a documentação. Logo, reescrevo o post com maiores explicações técnicas e com a documentação anexada.

Sobre a documentação, uma primeira observação é essencial: as emendas que apresento aqui serão encontradas com alterações no site da Câmara – basicamente sumiram com o nome “FGV” de algumas emendas. O ponto é que as emendas que foram apresentadas na seção das 10 horas da manhã foram modificadas no site após a seção. Isso aconteceu, muito provavelmente, por conta do posicionamento energético do Deputado Edimilson (PSOL) contra este absurdo e, também, por causa da divulgação pública dos dados. Por sorte havíamos imprimido e arquivado as emendas originais apresentadas.

Outra observação importante é que temos pelo menos uma emenda que, apesar de não cumprir requisitos básicos necessários, foi aprovada – ou seja, foi aprovada ilegalmente. Explico: primeiramente, as emendas que estou me referindo são “emendas de comissão” . Cada comissão permanente pode apresentar até 8 (oito) emendas, sendo 4 (quatro) de apropriação e 4 (quatro) de remanejamento. Fora isso, há requisitos mínimos a serem cumpridos para a aprovação de emendas de comissão, como por exemplo:

(i) As emendas devem ter caráter nacional (art. 44, II, Resolução n° 1/2006 do Congresso Nacional);

(ii) conter, na sua justificação, elementos, CRITÉRIO E FÓRMULAS que determinem a aplicação dos recursos, em função da população beneficiada pela respectiva política pública, quando se tratar de transferências voluntárias de interesse nacional.

(iii) é vedada a destinação de emendas a entidades privadas, salvo se contemplarem programação constante do projeto (art. 44, II, Resolução n° 1/2006 do Congresso Nacional). Como a FGV não constava no projeto original, não poderia receber emendas.

A Emenda 01/17 (em anexo), do Deputado Júlio Lopes, no valor de 40 milhões que já foi aprovada na CFT, não cumpre nenhum dos três requisitos acima. O primeiro é descumprido explicitamente já que no campo localidade beneficiada, consta o Estado do Rio de Janeiro, quando há a obrigatoriedade do campo ser preenchido , expressamente, com o termo “Nacional”. Já a justificativa, claramente, não cumpre os requisitos do segundo critério. Por fim, a FGV é instituição privada que não constava no projeto original, logo não é apta a receber tais recursos, o que viola a terceira condição.

O resumo das emendas apresentadas – só no âmbito da CFT – é o seguinte:

• Emenda n° 1/2017, do dep. Júlio Lopes – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 2/2017, do dep. Benito Gama – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 4/2017, da dep. Simone Morgado – valor de R$ 110.385.104,00 (Essa emenda foi destinada à ação orçamentária genérica de “Gestão de políticas econômicas e fiscais”, mas na justificativa está expressa a destinação à FGV);
• Emenda n° 8/2017, do dep. Luis Carlos Heinze – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 11/2017, da dep. Soraya Santos – valor R$ 50.000.000,00

No total foram apresentadas emendas no valor de mais de 280 milhões de Reais. A título de comparação, o orçamento executado em 2017 de várias grandes Universidades Públicas é bem inferior a isso. Por exemplo: UNB com 183 milhões executados; UFF 208 milhões; UFRRJ com 73 milhões; UFMG 238 milhões, dentre vários outros exemplos.

O exemplo mais emblemático é o da UERJ: a reitoria alega que para voltar ao funcionamento normal é preciso de 90 milhões. Os alunos, trabalhadores e professores da UERJ estão passando por uma situação de verdadeiro caos. A greve já dura meses e os professores , alunos , servidores e terceirizados não sabem quanto e nem quando irão receber suas bolsas e salários. É uma calamidade. Enquanto isso, na CFT, é apresentado 280 milhões para uma Instituição Privada.

Por fim, para o texto não ficar muito cansativo, vale destacar a justificativa de umas das emendas, onde alega-se que a FGV merece 50 milhões já que, dentre outros, DEFENDE O DIREITO À DESIGUALDADE PELO MÉRITO (FOTO)

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El patrón não poderia ser autuado pelas novas velhas leis escravocratas brasileiras

A casa grande está em festa. Impressionante. Se tiver sendo ameaçado por dívida, em condições degradantes, trabalho forçado, exaustivo, tá tudo bem. Só é trabalho escravo se tiver uma bola de ferro no pé, ou um capataz armado. A ideologia por trás é que “tudo é individual”, “tudo é escolha do indívíduo”. “Tá ali porque quer”, “tá de uber porque quer”, “tá cortando cana porque quer”, “faz reorientação sexual se quiser, não é obrigado”. Tudo é escolha, nada é responsabilidade, coerção, poder assimétrico, não vivemos em sociedade, é uma ilusão. Brasil, 2017.

 

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Seriam os Povos Caçadores-Coletores os Humanos Mais Felizes Que Já Viveram?

Essa matéria foi feita por Michaeleen Doucleff para o NPR. Traduzida por Marcos Godoi 

Há uma ideia permeando o mundo da antropologia que pode te fazer repensar o que te faz feliz.

A ideia não é nova. Ela apareceu no senso comum nos anos 1960 e ajudou a consolidar o crescente movimento ambientalista.

E agora vários livros a estão trazendo de volta aos holofotes.

A ideia é simples: talvez os modos de vida americano e europeu não é o ápice da existência humana. A humanidade não progride — de forma linear — em direção a terra prometida. Talvez a sociedade ocidental não seja um etapa mágica na qual a tecnologia nos livra das necessidades básicas e nos permite maximizar o lazer e a felicidade.

Talvez a modernidade tenha feito exatamente o contrário. Talvez os dias mais felizes da humanidade estejam no passado — e no passado remoto.

“Os nômades caçadores-coletores vivam melhor?” pergunta James Lancester em um artigo recente na The New Yorker:

“Estamos nos vangloriando ao acreditar que a vida desses povos era terrível e que a nossa, civilizada, é em comparação maravilhosa”, diz Lancester.

Essa ideia reaparece no fascinante novo livro do antropólogo James Suzman, chamado “Afluência sem Abundância”.

Suzman passou os últimos 25 anos visitando, vivendo e aprendendo com um dos últimos grupos de caçadores-coletores do planeta — os Khoisan ou Bosquímanos no deserto de Kalahari, na Namíbia.

Um estudo realizado nos anos 1960 descobriu que os Bosquímanos encontraram um jeito de trabalharem apenas 15 horas por semana procurando comida e outras 15 a 20 horas em tarefas domésticas. O resto do tempo é usado para relaxar e focar na família, amigos e hobbies.

No novo livro de Suzman, é oferecido um vislumbre de como é a vida nessa cultura eficiente — e como era a vida durante a maior parte da evolução humana.

O que consideramos “humanos modernos” vivem no planeta há 200 mil anos. E durante 90% deste tempo, não havia armazenagem de grãos nem rebanhos prontos para serem abatidos no pasto ao lado da casa. Ao invés disso, nos alimentávamos usando nossos dois pés: caçando animais selvagens e coletando frutas e raízes.

Como a vida das pessoas foi se distanciando do estilo de vida caçador-coletor, talvez tenhamos deixado para trás os elementos da vida que nos faziam felizes. Talvez a cultura dos países “desenvolvidos” tenha deixado buracos na nossa psique.

As experiências de Suzman o tornaram qualificado para tentar responder essas questões filosóficas e oferecer sugestões de como podemos reduzir essa distância. Conversamos com ele sobre seu novo livro.

O que você acha da ideia de o estilo de vida dos caçadores-coletores os faz tão felizes quanto uma pessoa pode ser? Há algo que sugere que isso seja verdade?

Veja, a sociedade bosquímana não é o paraíso. Nas vidas deles, há tragédias e tempos difíceis. As pessoas as vezes ficam bêbadas e brigam.

Mas as pessoas dessa sociedade não se mantêm reféns da ideia de que a grama do vizinho é mais verde — de que se eu fizer X ou Y, minha vida melhoraria visivelmente.

Portanto, a riqueza deles era baseada em ter poucas necessidades que podiam ser facilmente atendidas. Fundamentalmente, eles tem poucos desejos — apenas as necessidades básicas que eram facilmente atendidas. Eles são caçadores habilidosos. Eles podem identificar centenas de espécies diferentes de plantas e sabem exatamente quais partes delas usar e quais partes descartar. Se os seus desejos são limitados, então é muito fácil realizá-los.

Em contraste, o mantra da economia moderna é o da escassez limitada: teríamos infinitos desejos e meios limitados para realizá-los. Trabalhamos e fazemos de tudo para tentar preencher esta lacuna.

De fato, não acredito que os Bosquímanos tenham pensado tanto sobre a felicidade. Não conheço palavras equivalentes à “felicidade” na língua deles, pelo menos não da forma como pensamos nela. Pra nós, a felicidade se tornou um objetivo.

Os Bosquímanos tem palavras para suas emoções, como alegria ou tristeza. Mas não tem uma palavra para essa ideia de “ser feliz” a longo prazo, como se houvesse algo que pudesse ser feito para tornar a vida “feliz” no longo prazo.

Os Bosquímanos tem uma percepção do tempo diferente da que possuímos na cultura ocidental. No seu livro, você diz que pensamos no tempo como algo linear e em constante mudança, mas para eles o tempo é cíclico e previsível. Você acredita que isso os faz mais felizes?

Essa é uma das maiores diferenças entre nós e os povos caçadores-coletores. E fico estupefato que não haja mais antropólogos escrevendo sobre isso.

Tudo nas nossas vidas é voltado para o futuro. Por exemplo, podemos conseguir um diploma para conseguir um emprego, para que possamos ter uma aposentadoria. Para povos agricultores, é da mesma forma. Eles plantam as sementes que irão colher e armazenar.

Mas para os caçadores-coletores, tudo era voltado para o presente. Seu esforço era todo concentrado em atender uma necessidade imediata.

Eles são absolutamente confiantes de sua capacidade de conseguir alimento em seu ambiente quando necessitassem. Portanto, eles não perdiam tempo estocando ou plantando. Seu estilo de vida criou uma perspectiva muito diferente sobre o tempo.

Eles nunca perdiam tempo imaginando futuros diferentes para eles ou para os outros.

Tudo que fazemos hoje é baseado nessa mudança constante e duradoura, ou seja, em nossa história. Olhamos para nós mesmos como sendo parte de nossa história, de nossa trajetória no tempo.

Os caçadores-coletores nunca se preocupavam em se posicionar na história, porque o mundo ao seu redor era sempre basicamente o mesmo. Não mudava.

Sim, pode ser que haja diferentes árvores nascendo ano após ano. Há mudança no ambiente de acordo com as estações do ano. Mas havia uma continuidade sistêmica no todo.

Penso que isso é algo maravilhoso, extraordinário. E penso que é algo que nunca teremos de volta — uma forma diferente de pensar sobre algo tão fundamental quanto o tempo.

Isso se manifesta de muitas formas diferentes. Por exemplo, eu perguntava a um deles o nome de seu bisavô e haviam pessoas que simplesmente não sabiam dizer. Eles não se importavam. Tudo era focado no presente.

Atualmente, as pessoas vão a aulas de mindfulness, aulas de yoga, entre outras coisas, apenas para conseguirem viver no presente. Os Bosquímanos vivem no presente o tempo todo!

E o triste é que, no momento em que você age assim de forma consciente, você deixa de viver no presente.

É como dar o saque perfeito no tênis. Você pode saber toda a teoria do mundo sobre como jogar tênis. Mas dar um saque perfeito é algo profundamente físico. É subconsciente.

Então os Bosquímanos detêm o segredo para a mindfulness e para viver no momento. É essa a fonte da felicidade deles?

Há essa alegria suprema quando temos estes momentos, você sabe, quando o tempo desaparece.

Eu me sentia assim quando era mais jovem, e saia para dançar. O tempo desaparecia. Não havia um antes nem um depois.

Então essa a forma que as pessoas podem entender a noção de tempo dos caçadores-coletores? Viver subconscientemente no momento?

Penso que há algumas coisas na vida moderna que podem preencher a lacuna deixada pela desconexão com a natureza.

Penso que esportes podem preencher esse vazio, ou fazer trilhas longas. Você também pode perder a noção do tempo ao fazer atividades que te façam sentir completo e satisfeito, como fazer artesanato, pintar e escrever.

Depois de passar tanto tempo com os Bosquímanos, a sociedade ocidental parece maluca?

Ha, ha. Quando era mais novo, tinha raiva deste “nós”, ou seja, da forma como as pessoas em nossa sociedade se comportam.

Mas ao longo do tempo, percebi que se tenho a cabeça aberta em relação a meus amigos Bosquímanos, tenho que ter também em relação as pessoas daqui.

Portanto, essas experiências na verdade humanizaram as duas sociedades. Eu percebi que todos os tipos de gente — e suas culturas — são igualmente inteligentes e burras.

Lendo: Neutralidade da Ciência e Determinismo Tecnológico. Renato Dagnigno

Existem algumas formas de classificar as abordagens teórico-históricas em torno da Ciência e Tecnologia (C&T). Uma delas é a proposta por Dagnino (2010), na qual as abordagens podem ser divididas naquelas focadas na C&T, essas subdividas em (i) neutralidade da C&T e (ii) determinismo da C&T; e aquelas focadas na sociedade, subdividas por sua vez em (iii) tese fraca da não neutralidade e (iv) tese forte da não neutralidade.

A ideia de neutralidade da ciência surge junto com a própria ascensão da ciência ocidental como oposta aos dogmas religiosos, a partir do século XV. Uma vez que a ciência passa progressivamente a substituir a religião como critério de busca da verdade, ela passa também a ser vista, no contexto do Iluminismo, como um processo inevitável, comum a todas as sociedades, ideia que coaduna com a noção de evolucionismo social. Dentro dessa percepção –  carregada de eurocentrismo – a ciência seria indiferente às determinações dos processos sociais bem como incapaz de determiná-los, por ser apenas uma parte (a “iluminação”) do caminho que todas as sociedades estão inexoravelmente destinadas a traçar. Como contraposição à ideia de neutralidade, está a ideia de determinismo tecnológico, trazida pelo marxismo e derivada da constatação de que a ciência e a tecnologia são preponderantes na determinação do processo social. Isto é, as forças produtivas e a tecnologia determinam as relações sociais. Outras abordagens, focadas na sociedade, são a tese fraca da não neutralidade, na qual é a sociedade que determina o processo de ciência e tecnologia, e a tese forte da não neutralidade,  adotada crescentemente pelo marxismo contemporâneo, na qual os processos se afetam e se determinam mutuamente. (DAGNINO, 2010).

Nuñez (2000 apud Dagnino, 2010) classifica como relativamente independentes a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial do século XVIII, ao passo em que considera como plenamente dependentes e cada vez mais imiscuídos os processos de ciência e tecnologia a partir da segunda metade do século XX. Atualmente, a ciência não corresponde mais à imagem de indivíduos isolados em busca da verdade, descolados do processo de desenvolvimento tecnológico, da mesma forma que “…C&T têm sido crescentemente impulsionadas pela busca de hegemonia mundial das grandes potências e pelas exigências do desenvolvimento industrial e as pautas de consumo que ali se geram e difundem para as sociedades que imitam esses processos de modernização…” (Dagnino, 2010, p. 25). Assim, a mudança histórica na relação entre ciência e tecnologia parece ser não somente quantitativa – observe-se, por exemplo, a diminuição histórica do tempo transcorrido entre invenção e inovação -, como também qualitativa – as empresas e a busca pelo lucro guiando grande parte do processo de invenção e inovação. Consequentemente, a linha divisória espacial entre ciência pura e aplicada também se turva, vez que a empresa e a lógica concorrencial adentram cada vez mais a universidade, invadindo e determinando inclusive a chamada “ciência básica”, criando a tecnociência, e explicitando cada vez mais a não neutralidade da C&T.

A noção de neutralidade da C&T deriva do pressuposto de que a ciência é a revelação da verdade contida na natureza, de forma que ela não poderia assim carregar valores. Como ressaltado por Dagnino (2010), “a ideia da neutralidade parte de um juízo fundacional difuso, ao mesmo tempo descritivo e normativo, mas abarcante e potente, de que a C&T não se relaciona com o contexto no qual é gerada. Mais do que isso, que permanecer dele sempre isolada é um objetivo e uma regra da ‘boa ciência'” (Dagnino, 2010, p. 39).  Uma das consequências dessa ideia é a impossibilidade da coexistência de diversas C&T que reflitam diversos ambientes étnico e culturais, uma vez que haveria apenas “uma verdade”, uma C&T correta, à qual tudo deve se adaptar progressivamente. Sendo assim, um paradigma seria substituído racionalmente por outro, em direção a verdade e conhecimento únicos, como proposto por Thomas Khun, pavimentando o caminho também único e cumulativo do progresso. A neutralidade da C&T, que baseia a ideia de progresso, supõe que um mundo ideal seria construído pelo emprego da lógica e da racionalidade, de forma que as questões sociais poderiam ser tratadas como científicas, eliminando os conflitos acarretados por paixões, ideologia e política, com a finalidade última do aumento da eficiência.

Tal ideia é tão atraente tanto quanto capciosa. De fato, a natureza física, química e biológica do planeta é unica e incontornável. No entanto, argumentar a partir daí que a C&T segue a mesma lógica é uma extrapolação falaciosa. Heiddeger argumenta que mesmo que uma sociedade atingisse avançado grau de racionalidade, a tecnologia é inerentemente valorativa, de forma que o resultado seria a criação de uma distopia, com horrores sociais produzidos em nome de uma eficiência nada neutra (FEENBERG, 1999b apud DAGNINO, 2010). Isto é, a ciência é neutra enquanto conhecimento, mas nunca o será enquanto instituição, feita de atores sociais, imbuídos de valores, em uma sociedade capitalista.

Argumentos subjacentes à ideia de unidirecionalidade inevitável do progresso tecnológico:

  1. simultaneidade das inovações e invenções em distintos locais
  2. a combinação de inovações preexistentes para a criação de uma terceira inovação seria um caminho natural
  3. a busca pelo aperfeiçoamento dos artefatos ao longo do tempo, por meio de mudanças sucessivas e contínuas de projeto
  4. entendimento do conceito de eficiência como sendo neutro, ao refletir apenas uma proporção entre inputs e outputs, que independeria de qualquer fator social.
  5. análise do desenvolvimento tecnológico apenas como um produto final, ignorando os processos de chegada até ele.
  6. toda a tecnologia seria derivada da ciência pura, que é a única fonte da verdade. Ou seja, a ciência pura está acima de todos os demais processos cognitivos e esses não servem para o desenvolvimento tecnológico.

Determinismo tecnológico no marxismo

O entendimento do determinismo tecnológico em Marx é matéria controversa, explorada por diversos autores. Ao mesmo tempo em que fica clara a importância da tecnologia e das forças produtivas na determinação dos modos de produção e nas relações técnicas e sociais de produção, também infere-se da sua obra que as relações sociais de produção por vezes constituem travas à mudança tecnológica, tendo em vista que existe uma contradição dialética entre relações sociais de produção (relações de propriedade) e forças produtivas. Quando tal contradição se exacerba é o momento em que um modo de produção pode ser superado. Apesar dessa contribuição fundamental à análise da tecnologia como determinadora dos processos sociais, autores como Gramsci e Lukács interpetam que Marx não pode ser considerado um determinista tecnológico, pois reconhece a dialética entre as relações de produção e as forças produtivas. Dessa forma, fatores como o nível de salários, os mercados existentes e a taxa de juros influenciam a escolha das técnicas a serem utilizadas.

No entanto, dentro da tradição marxista uma linda determinista se fez presente com bastante ênfase, seja porque tal concepção favorecia a ideia de que a transição ao socialismo era também um passo teleológico inevitável e que para tanto bastava-se apropriar da tecnologia.

“O fato é que essa concepção parece ter sido uma das razões que afastaram a C&T do debate e que reforçaram uma visão tão instrumental a ponto de não poder ser desconsiderada na análise da experiência do socialismo real. […] Aceitar que nenhuma sociedade para se desenvolver poderia adotar opções tecnológicas distintas às dominantes nas sociedades mais avançadas, que seria as que ensejam maior produtividade do trabalho, levou não apenas ao não-questionamento da forma como se processava no capitalismo o desenvolvimento da C&T, entendida de fato como única, mas levou também que se tentasse, com pouco sucesso como se sabe, sua mera utilização para a construção do socialismo” (DAGNINO, 2010, p. 80-81)

Determinismo tecnológico na economia neoclássica

Enxergam a tecnologia como uma caixa preta de inputs e outputs, de forma que apenas implicitamente o processo decisório do agente mediador, o empresário, pode ser visto como uma sutil consideração social do processo.

Visão Schumpeteriana

Produz ruptura com a visão neoclássica e introduz características sociais, ao passo que considera a irracionalidade dos agentes responsáveis pela inovação, as qualidades que o levam além da maximização de lucros, ampliando o espectro de tecnologias existente, e o papel desempenhado pelo desequilíbrio da concorrência imperfeita, os oligopólios, na criação tecnológica.

Argumentos contrários ao determinismo:

  1. tecnologia é produto de disputas, controvérsias e fracassos, acidentes, obsolescência programada e path dependecies, todos dependentes do meio social.
  2. verifica-se rendimentos crescentes de adoção, isto é, a tecnologia não é selecionada necessariamente por ser eficaz, mas se torna eficaz por ter sido adotada
  3. os inputs e outputs não são os mesmos em todos os locais, portantos são dependentes tanto da geografia quanto da cultura
  4. a tecnologia muitas vezes é criada não com base na ciência pura, mas sim, advém da prática passada por gerações por meios culturais e conhecimentos tradicionais
  5. Historiadores da relação do trabalho negam que o desenvolvimento tecnológico demande por exemplo a divisão do trabalho e mostram como a tecnologia é determinada pelas relações de força entre patrões e trabalhadores (Lander, 1994 apud Dagnino, 2010).

 

Enfoques sociais da C&T

A tese fraca da não-neutralidade postula que uma tecnologia que nasce no seio de determinada sociedade é a ela funcional e internaliza suas características, contribuindo para o desenvolvimento e permanência daquela sociedade e suas estruturas políticas e culturais. Advinda principalmente do construtivismo e do marxismo. Entende a necessidade da participação popular na apreensão da construção da C&T que é inerentemente cultural e política.

A tese fraca rejeita a ideia de que a tecnologia é neutra e bastaria analisar o sistema economico e social no qual ela está inserida, mas sim, busca analisar a tecnologia como portadora e manifestadora de conteúdo político.

A tese forte da não neutralidade acata a mesma premissa, mas argumenta ainda que não é desejável e nem adequada a transferência de uma tecnologia ou sua apropriação por outra sociedade que compartilha de outros contexto, cultura e objetivos.

 

 

 

 

 

 

Hans Rosling: mais um ted talk sobre como o mundo é bom, ao contrário do que eu vejo pela janela.

Desde 2010, o físico e matemático sueco, Hans Rosling (falecido ano passado), é mundialmente popular pelos seus TED Talks, nos quais tem a incrível habilidade de ver o mundo com bons olhos, e convencer a todos, com o vigor de uma criança, de que o mundo não está ruim como eles pensam, que a percepção popular sobre pobreza, desigualdade e outras coisas, é enviesada pelas notícias. Sempre olhei com meu habitual cansaço para os TED Talks dele e, infelizmente, nenhum deles conseguiu me tirar da rotineira indignação marxista, que se reveza com momentos de aceitação do absurdo.

Aí resolvi voltar a ser economista um pouco e focar nos dados apresentados por Rosling. Na própria ferramenta do Gapminder, criada por ele, quando se retira o log da renda, têm-se a real ideia de como evoluiu a distribuição da riqueza ao longo dos anos no planeta. Seguem abaixo os gráficos comparativos logaritmicos do Hans Rosling, e os gráficos comparativos lineares, feitos por mim. A adoção do log para a variável renda é sempre um mero detalhe para a estatística usada pela economia hegemônica (neoclássica). Isso porque para alguém que possui R$1, R$10 deve ‘significar’ o mesmo que R$100 para quem tem R$10. Ou ainda, porque para alguém que tem R$1, um incremento de R$10 é muito mais significativo do que o mesmo R$1 para alguém que tem R$100. Sim, claro, isso é o capitalismo.

A questão é justamente essa! O gráfico e os números não estão aí precisamente para serem “isentos”? Pois então, já se vê o valor implícito até nas premissas para a adoção de um log ou um linear. E nesse caso, especificamente, isso é incrivelmente mais problemático, porque se o que se quer medir é justamente a evolução da desigualdade entre indivíduos e países e não o percentual de quanto um indivíduo evoluiu em relação a ele mesmo, então, a adoção do log e a ideia de renda incremental tornam tudo mais enganoso ainda.

Para quem alega apresentar fatos para combater ideias pessimistas pré-concebidas, o fato de usar o log, se alicerçando no argumento da renda incremental, explicita uma concepção de mundo já naturalizada – capitalista, esperançosa e baseada na falácia do etapismo social. Os gráficos e dados apresentados, consciente ou inconscientemente, são, assim, capazes de sustentar e promover tal concepção, se valendo ainda do benefício da isenção matemática e científica.

Crítica no mesmo sentido foi abordada nesse texto, em inglês.

Hans Rosling
Os gráficos estão em Log. A diferença entre $1 e $10 é a mesma do que entre $10 e $100. Esse “detalhe” gera uma enorme distorção visual. O autor também não deixa claro se os dados estão em termos reais ou nominais

 

comparação 1973 2010
O tamanho das bolhas representa o número populacional vivendo com a respectiva renda per capita. Dados em termos reais e em paridade de poder de compra. A cor das bolhas representa cada continente: Américas (verde); África (azul); Ásia (vermelho); Europa (amarelo)

Poder Popular e República Catalã

Texto anônimo.

O independentismo catalão vem marcando a pauta do debate público. Não há dúvidas quanto a isso. O desafio do parlamento catalão contra a legalidade espanhola é um gesto político que não pode passar desapercebido. As posturas básicas diante desta questão -e falando da independência e não apenas do “direito a decidir”- são duas: Para alguns a independência é um assunto que não devia existir, já que “isto não é importante” o quê importa de verdade são os problemas “reais” do povo. Para outros, a independência da Catalunha é equivalente ao direito legítimo de autodeterminação de um povo e neste sentido se trata de um direito fundamenta e inalienável que merece a pauta número um do debate. Para alguns, a independência é uma possibilidade real de ruptura com o “régimen del 78” (http://vientosur.info/spip.php?article7571) e com a Espanha pós-franquista. Para outros, é uma proposta de ruptura fictícia, uma troca de máscaras da burguesia catalã. Em todos os casos surge a idéia de que você não consegue não se posicionar “a favor” ou “contra” a independência.

Tentarei nos parágrafos seguintes demonstrar os diferentes caminhos que a questão catalã pode acabar pegando e as diferentes possibilidades políticas que ela abre.

– O caráter contraditório da questão nacional

A independência da Catalunha surge como uma reivindicação de libertação nacional. Para o movimento contestatório a libertação nacional sempre foi uma questão complicada.

Por um lado considerou-se que um movimento nacional promovia a unidade entre os opressores e oprimidas(os) frente a um invasor exterior e, portanto, não deixaria margem para a confrontação com a opressão dentro de cada formação social. Esta linha política argumenta que toda unidade nacional e todo patriotismo são um engano. Argumenta que as lutas de libertação nacional, mesmo quando legítimas, conduziram sempre em direção à criação de novas estruturas opressivas e a novos espólios praticados pelas novas elites.

Por outro lado, considerou-se que um movimento de libertação nacional pode possuir um conteúdo emancipador a medida que promove a ruptura com os estados imperialistas e pós-imperialistas -no caso catalão, a ruptura com os resíduos do Imperio Espanhol. A luta nacional, seguindo a lógica de autores como Franz Fanón, está ligada ao movimento histórico de lutas contra o colonialismo e o racismo, e portanto não é um movimento de supremacia nacional, mas totalmente o contrário disto, é um movimento anti-supremacista igualitarista, uma proposta pela igualdade de todas e todos, a partir da defesa daqueles territórios cuja a população está subordinada à metrópole (pos)colonialista.

Para os defensores das possibilidades emancipadoras da independência, Catalunha está no mesmo movimento histórico de lutas que o Curdistão, Palestina ou a luta do povo Mapuche. Para os críticos da independência catalã, o imaginário anti-colonialista é profundamente problemático:

Em um texto rescente da revista UnaPosición, os companheiros escreveram:

“A história é bem conhecida. As lutas anti-colonialistas tiveram um certo êxito, que conduziram à criação dos Estados nacionais independentes. Mas o êxito foi também amargo: defender a nação podia ser uma linha de defesa eficaz contra a metrópole colonizadora e mais forte, já que obrigava o povo colonizado a se unir para liberar suas terras. Mas, a partir do momento se saíram vitoriosos, converteu-se em um novo aparato de dominação, quando o Estado teve que garantir certa disciplina social para poder existir. Observemos um pouco este ponto. No imaginário anti-colonial revolucionário, a criação de um Estado nacional era o que foi a Revolução de outubro de 1917 (https://pt.wikipedia.org/wiki/Revolu%C3%A7%C3%A3o_de_Outubro). Ou seja, um preâmbulo, uma primeira fase do processo revolucionário. Mas o calendário, apesar do planejamento das revolucionárias, em todos estes casos costumava se adiar: esse ‘outubro’ não chegava nunca, a revolução se estagnava em ‘fevereiro’. Os novos Estados nacionais -sem exceção- acabavam sempre presos ao ‘realismo’ e às hierarquias do mercado capitalista global. Uma boa lição para o nosso presente e futuro.” (http://lasoli.cnt.cat/…/2017/apuntes-para-psicologia-catas…/)

Ou seja, como arma de sabotagem das hierarquias racistas e colonialistas a luta anti-colonial funcionou. Mas a vitória de dita luta foi também o seu enterro, uma vez que cada novo Estado se convertia em uma corrente a mais da matriz mundial de dominação. Além do mais, a defesa do território não foi necessariamente igualitária. Ao contrario disto, pode ganhar características supremacistas e racistas. Vamos lembrar a recente guerra da Iugoslávia: a declaração de independência da Eslovênia e da Croácia teve este conteúdo supremacista e racista ante outros povos da Iugoslávia. Eslovênia e Croácia eram os territórios mais desenvolvidos e desejavam uma maior conexão com os Estados ocidentais e ao mesmo tempo tendo uma visão de outros povos da Iugoslávia como sendo muito sulistas, balcânicos e folgados. Sem qualquer conteúdo emancipador…

Na conjuntura histórica atual, a volta ao território nacional aparece em diferentes lugares do mundo como protesto aos problemas e às injustiças do capitalismo globalizado ou como resistência à opressão de um Estado autoritário. Às vezes a esquerda levanta a bandeira do orgulho nacional, e isto é o que aconteceu em certa medida na Grécia em 2015. Em outros casos, as bandeiras nacionais são levantadas pela direita mais reacionária, por exemplo na Hungria. A questão nacional, em outras palavras, parece aberta a conteúdos totalmente heterogêneos e contraditórios. Em conclusão, não podemos dizer que as lutas pela independência ante uma metrópole ou uma unidade nacional maior são, em si, independentemente do contexto e a constação de forças sociais neste território, libertadoras ou que contribuem para a renovação da opressão.

– As duas correntes do independentismo catalão

Desta maneira, a questão da independência nacional se apresenta como aberta a diferentes conteúdos políticos. Podemos dizer que, de grosso modo, há duas correntes no pensamento independentista. Tratam-se obviamente de “modelos ideales”, isto é, relatos que não costumam se manifestar de forma pura nos diferentes discursos independentistas, senão de maneira híbrida.

· A primeira, que -sem dúvidas- a que atualmente tem mais força, é a reivindicação de um Estado catalão como expressão da identidade nacional catalã. Dentro desta perspectiva há um “povo catalão” que faz alguns séculos se encontra em uma situação de oprimido pelos monarcas espanhóis e privados de seu direito de autodeterminação. Esta perspectiva se sustenta com frequência na Guerra de Sucessão Espanhola (https://pt.wikipedia.org/…/Guerra_da_Sucess%C3%A3o_Espanhola) e na ocupação de Barcelona em 1714 pelo exército borbônico, além do dano econômico que sofre a região estando conectada com Espanha e certo supremacismo ante o povo da Andaluzia, etc. Trata-se de idéias que não estão só na base da direita catalã neopujolista (neopujolista é um termo pejorativo que vem de Jordi Pujol, presendent da Generalitat, equivalente ao governador de um estado, que esteve anos no poder apesar do comprovado envolvimento em escandalos de corrupção – https://pt.wikipedia.org/wiki/Jordi_Pujol). Os partidos de esquerda ou “esquerda” independentista manifestam muitas vezes tal discurso identitário, ainda que sem conotações abertamente racistas do conservadorismo catalão. A defesa da tradição, das danças, das indumentárias tradicional durante determinadas festas é indicativo de certo nacionalismo essencialista, revelando a identidade nacional que não perdeu sua continuidade ao longo dos séculos e que portanto existe, mesmo que às vezes em estado latente. Como mostra deste nacionalismo essencialista, vale a pena mencionar a constante referência aos “Països Catalans” (Países Catalãos), segundo o qual, por exemplo, uma valenciana pode ser catalã mesmo que ela não se reconheça como tal, mesmo que não se interesse em ser catalã e mesmo que não tenha a mínima vontade de defender esta idéia. Para o independentismo essencialista, há pessoas que são catalãs/não espanholas e deve ser defendido o seu direito de autodeterminação… inclusive se ela não quiser se autodeterminar assim; nem sequer existe um movimento social significativo que defenda este último tipo de “não autodeterminação”. Assim, o independentismo essencialista chega a defender de alguma maneira a idéia de “liberação” de terras alheias ocupadas… mesmo que sua população não o entenda. Cai então em uma espécie de proto-imperialismo e expansionismo nacional -que caracteriza todo ideal patriótico-, que se justifica baixo o nome de autodeterminação.

· A segunda corrente do independentismo catalão, mais fraca que a primeira porém presente, é a que parte de uma defesa da república -atenção: não a república só no sentido de democracia liberal sem um rei, mas no sentido da defesa do conteúdo liberal da palavra. A república que provém da “Res Pública” que -en latim- quer dizer vontade comum. O que se defende neste caso é a vontade coletiva de auto-instituição, de ser instituinte e não instituído.

Na conjuntura atual, este desejo instituinte ganha a forma de um movimento que pretende subtrair o território da Catalunha fora do poder do Estado espanhol, que não é só capitalista, como também (pós)colonialista, monárquico e (pós)franquista. O desejo constituinte republicano aspira a não criação de um novo Estado que tente se acomodar na hierarquia da geopolítica da economia global, mas sim conduzir a uma ventura de experimentação e de criação de novas formas de vida, de uma nova organização social. É evidente que tal República poderia ser construída na Catalunha, no entanto é preciso ter cuidado com o sentido da frase “República catalã”. A Res Pública, a vontade comum, -como vontade e todos independentemente de sua procedência ética- deveria ser “a-nacional” ou multinacional, e catalã seria só uma definição geográfica e não uma definição de um povo ou sua composição étnica.

Um modelo social e político igualitário, basado no mecanismo da democracia participativa efetiva teria que ser um referente para todos que lutam pela transformação social em qualquer lugar do mundo e, neste sentido, teria que ser considerado como uma tentativa autêntica de fraternização com todas as pessoas que são oprimidas no Estado espanhol e no mundo. Nesta perspectiva, a independência seria não das(os) catalãs(ães), mas sim de todas e todos contra o espólio e a violência das autoridades estatais.

Evidentemente que os que buscam um estado internacionalmente reconhecido e integrado na comunidade internacional vêem a segunda proposta como uma catástrofe para sua causa. E eles têm razão. Uma comunidade verdadeiramente democrática não pode fazer outra coisa senão entrar em conflito com o grande inimigo histórico da democracia: o capitalismo, suas versões globalizadas e financieras atuais e obviamente com toda a ordem inter-estatal que a acompanha. Além disso, uma comunidade verdadeiramente democrática não pode fazer outra coisa senão se opor ao supremacismo catalão burguês que o quê pretende é criar um novo Estado racista e classista como todos os outros. Portanto, nada pior para a independência nacional que uma república real.

– A esquerda independentista e suas contradições

A esquerda independentista é uma verdadeira mescla destas duas tendências citadas. Por um lado apoia o “Procés”, a criação de um novo Estado catalão inspirado na sua história de nação e de sua cultura. As referências constantes a 1714, ou seja, de um pasado supostamente glorioso e a admiração à “nossa” nação frente à nações inimigas ou não-existentes (a nação catalã é considerada “real” enquanto a espanhola é considerada imposta) mostra um importante componente patriótico-nacionalista identitário com conotações reacionárias latentes. A obseção pelos “Països Catalans” é uma confirmação.

Os independentistas esquerdistas justificam o seu discurso identitário nacionalista em oposição à Espanha colonialista e franquista. O problema com este ponto de vista é que os catalães não são nem curdos nem mapuches. Catalunha é uma das regiões mais desenvolvidas do Estado espanhol, e seu governo tem uma autoridade significativa nos âmbitos educacionais e cultural, ou no exercício da repressão policial. Assim, o paralelismo adequado não seria o Curdistão e Palestina, mas sim a Croacia e a Eslovênia.

Não há dúvida de que o tronco da defesa da causa nacional na Catalunha atual vem de um catalanismo normativista e burguês, que mostrou quem é verdadeiramente nos comentários sexistas e fascistas que encheram os jornais quando a CUP (https://pt.wikipedia.org/wiki/Candidatura_de_Unidade_Popular) se negou a oferecer apoio parlamentar à Artur Mas (ex-president da Generalitat https://pt.wikipedia.org/wiki/Artur_Mas). O Esquerra Independentista (https://es.wikipedia.org/…/Esquerra_Republicana_de_Catalunya) evidência -quando não aprova- as partes conservadoras e reacionárias, realidade do movimento da autodeterminação -não nos podemos esquecer e nem perdoar o apoio da CUP aos orçamentos da Generalitat para 2017-. Outro exemplo de como Esquerra Independentista chega a subestimar as classes oprimidas multinacionais é a famosa defesa da cultura catalã. Isto se expressa mediante idéias tão… brilhantes como a “normalització lingüística” (normalização linguística é uma lei que obriga o uso do idioma catalão na sinalização de espaços públicos ou comércios. Não é exclusivo, o catalão está sinalizado muitas vezes acompanhado da tradução em espanhol ou em inglês), que tem funcionado como otro nome para descriminação racistas -mas progresista, claro- contra a figura do trabalhador multinacional que, evidentemente, não tem tempo nem energia para fazer cursos de idiomas em seu tempo livre…

Gostando ou não, a “cultura” catalã tem sido o filtro que controla -junto, evidentemente, com todo o aparato jurídico e policial espanhol e catalão- os movimentos dos imigrantes no mercado laboral e na vida social catalã e que os mantém em uma posição de cidadão de segunda categoria. A(o) imigrante que quer morar na Catalunha para buscar uma vida melhor tem que passar, não apenas pelo filtro do Estado espanhol, mas também pelo das instituições catalãs. Tem que enfrentar um racismo institucional e social duplicado e sutil, algo que os esquerdistas catalães celebram como uma vitória, quando na verdade tinham que ter vergonha. Os catalanistas de esquerda, quando defendem tanto a sua cultura, o que fazem é abrir brechas dos privilégios que acumulam o cidadão catalão/espanhol que reside na Catalunha ante os cidadãos do mundo que chegam aqui. Os independentistas deveriam ter lido um pouco melhor W. Benjamin, que escreve que todo momento da cultura é um momento de barbarie e que a cultura nacional é sempre a cultura dos dominadores.

– O quê fazer?

Dá para defender a República na Catalunha. Daria para defender também a desobediência ao Estado espanhol para celebrar o 1-O (primeiro de outubro, o dia do referendo). Entende-se que é evidentemente impossível criar de repente uma sociedade plenamente igualitária e, por isso é preciso fazer alguns pactos… Dá para entender e concordar com a idéia de que temos que ir pouco a pouco, passo a passo, para alcançar uma transformação significativa de relações sociais. Mas não dá para ser ingênuo: a tendência cultural do movimento independentista é conservadora e pequeno-burguesa. E não existe na população aquela hegemonia cultural e ideológica dos valores e das práticas igualitárias que nos permite pensar que a República na Catalunha seria diferente de uma República alemã ou francesa. As leis da desconexão que foi votada no parlamento catalão mostra que o resultado da independência será continuar vivendo da mesma maneira, mas fora da monarquia espanhola, ou uma reprodução da mesma estrutura social baixo termos republicanos. A final, se o Estado espanhol tira a Guardia Civil ou o Exército para passear, quem quer que saia às ruas, e que sofrerá com as possíveis consequências das confrontações, sairá para que exista a agência tributária de sempre, a polícia de sempre, a patronal de sempre, a miséria de sempre.

Não se passaram muitos dias desde a manifestação “anti-terrorista” e dos abraços generalizados dos catalães com os seus Mossos d’Esquadra (polícia catalã equivalente à polícia do estado). E faz poucos dias estavam quase todos os partidos no Ajuntament (prefeitura) de Barcelona, independentistas e não independentistas, condecorando as forças de segurança catalãs, -os assassinos de Juan Andrés Benitez (vítima de violência policial em 2013 https://ca.wikipedia.org/…/Mort_de_Juan_Andr%C3%A9s_Ben%C3%…), os perseguidores de imigrantes, os torturadores de presas(os)-. A CUP tiveram coragem de dizer “não” com contundência à esta cerimônia. Entretanto, a Esquerra Independentista e todas e todos temos que nos perguntar o quê de “res pública” (vontade comum) existe neste momento na Catalunha para criar alguma coisa que não seja uma cópia do que é a Espanha -mas sem o PP (Partido Popular. Extrema direita atualmente na presidência espanhola) e sem o Rei. Se é para defender só a uma Cultura, W. Benjamin já deu a sua resposta. Se é para criar outro modo de vida, a desobediência ao Estado espanhol está estritamente ligada à desobediência às leis do novo Estado. Ruptura com o Estado espanhol, sim. Ruptura com o novo Estado catalã “internacionalmente reconocido”, também. Sempre a favor de uma República, que não pode ser das elites, mas sim dos orpimidos.

De toda forma, se você entende um pouco de política, entende que influir políticamente só é possível se posicionando em situações incômodas para o movimento contestatório. A centralidade do nacionalismo indentitário -mesmo que não se declare como tal- a confusão da Esquerra Independentista de criar um Estado como qualquer outro, nos faz pensar que se alinhar com todo este movimento pode ser perigoso. E é. Mas temos que assumir este risco. Porque do outro lado estão os herdeiros do Franco, o pós-fascismo espanholista. E não podemos dar a eles mais uma vitória. A vida é o que acontece enquanto você faz outros planos. A vida política também. Preferiríamos outros cenários e outras agendas políticas, mas isso é o quê tem pra hoje. A tarefa política emancipadora neste momento é aprofundar a oposição entre República real e o Estado normal, entre democracia efetiva e capitalismo, participando em todas as mobilizações que complicam a vida do Estado (pós)franquista e dar a elas um caráter que também possam minar a autoridade das elites catalãs.
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(texto original em espanhol http://suntcommunia.blogspot.com.es/2017/09/poder-popular-y-republica-catalana.html)

 

Embat: um 11 de setembro para destituir

Texto original em catalão no site do Embat: http://embat.info/embat-davant-un-11s-destituent/

Para nós, libertárias do Embat, o dia 11 de setembro simboliza uma data para lembrar todas aquelas pessoas que, neste país, se levantaram contra a opressão para defender as liberdades ao longo dos séculos, lutando contra as estruturas dominantes. Graças à estas pessoas, sistematicamente reprimidas com brutalidade e enterradas como anônimos em foças comuns, hoje podemos manter a chama de uma vida livre.
Este 11 de setembro, como sempre, encontra-se dentro de uma grande onda de mobilização popular que desde diferentes entidades e tradições políticas demandam cotas maiores de soberania. Defendemos como sempre a participação direta de toda a população nas questões que afetem a elas e portanto defendemos o direito de autodeterminação que o nosso povo ha de exercer no dia 1 de outubro. Sendo assim, apartir do processo constituinte que começaria o dia 2 de outubro, desejamos poder ampliar este desejo a todos os âmbitos do cotidiano. Será um momento para reescrever as regras que pautam a nossa sociedade e para colocar na mesa modelos diferentes de Estado. Apesar de tudo, isso dependerá do que acontecerá durante o mês de setembro, que será crucial.

Temos um cenário com um “regime de 78” (http://vientosur.info/spip.php?article7571) que já não é capaz de governar de forma pacífica e convencional a Catalunha. Cada vez mais camadas sociais estão deixando de acreditar na legitimidade do “regime” para ditar leis, para dizer o que devemos fazer. A Generalitat (governo catalão) e muitas prefeituras atuam praticamente como instituições de um país independente. A classe média, os jovens, e parte da classe trabalhadora não sentem mais nenhuma vinculação com o Estado espanhol. O governo central tentará revertir isso no grito de “unidade à pátria” e de “indivisível nação espanhola”, com a contribuição lamentável da maioria da esquerda espanhola e catalã, que podiam aproveitar a conjuntura para derrubar a monarquia pós-franquista.

Seremos testemunha do enfrentamento entre as instituições catalãs e estatais espanholas, o posicionamento de lealdades, a disputa entre legalidades, o ajuste de posições… O Estado espanhol não será fácil de ser derrotado e já começa uma perigosa demonstração de força política, judicial e policial. Sabemos que apenas com o voto não alcançaremos a independência. Precisamos de uma grande mobilização disposta desobedecer com o objetivo de desgastar o controle do Estado espanhol sobre o territorio catalão.

Também é um bom momento para abrir novos fronts de conflitos vindo dos nosso bairros (associações de vizinhos, assembleias, grupos pelo direito à moradia) e dos sindicatos, para elaborar políticas de moradia, de “remunicipalização”, de relações trabalhistas, que ajudem a definir uma postura popular do processo constituinte.

Apoiamos e incentivamos o apoio a todas as manifestações a favor do exercício de autodeterminação contra o autoritarismo.

Sobre a independência da Catalunha, por Federação Anarquista da Catalunha

Federação Anarquista da Catalunha

Os mecanismos para participar nas decisões coletivas deste sistema político impedem um posicionamento decisivo. Deixar que representantes tomem decisões por outros nos levou à frustração atual de nos ver limitados a realizar posicionamentos simbólicos. Os órgãos da grande maioria da administração pública e empresas privadas decidem unilateralmente, e ignoram ou até proíbem o posicionamento ou consultas populares. Podemos mudar este mecanismo de decisão. Podemos nos organizar de forma horizontal e decidir todos os dias coisas que nos afetam diretamente. Necessitamos um interesse unânime para decidir a maneira que queremos nos organizar socialmente, políticamente e no âmbito trabalhista. O nosso envolvimento nas decisões ou lutas trabalhistas, sociais, políticas, ecológicas, etc. nos converte em responsáveis das nossas próprias vidas. São então processos, experiências, transmissões o quê possibilitam que todas entendam a sua responsabilidade para decidir sobre como seria a melhor forma de nos organizar.

Os referendos são uma forma efetiva fazer decisões diretas sobre assuntos concretos. Os movimentos sociais organizaram muitos referendos populares que nunca foram validados pelas administrações. O referendo atual para decidir a continuação ou a independência da Catalunha, está provocando conflitos entre administrações do Estado espanhol. Além disso, está se convertendo em uma estratégia que certos partidos políticos utilizam para produzir mártires de uma causa nobre e apagar ou desculpar a corrupção e medidas impopulares. O descontentamento com a “constituição de 78” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Constituição_espanhola_de_1978), o histórico repressivo à cultura catalã e a luta dos movimentos que defendem a autodeterminação é a evidência do conflito que interessa para a gente.

Nós, da Federação Anarquista da Catalunha, manifestamos o nosso suporte ao referendo de 1 de outubro, já que a autodeterminação dos povos formam parte da autogestão e da auto-organização. Mesmo que sejam organizados por uma administração da Catalunha, entendemos que responde a uma necessidade real de interesse de muitas pessoas, além de abrir a possibilidade de um processo destituinte e organizativo não continuista.

Criticamos as margens impostas na participação deste referendo. Fazemos oposição aos limites administrativos da Catalunha; existem aspectos em comum com outras regiões próximas por motivos geográficos ou por relações cotidianas que estão sendo ignorados. Também são excluídas de votar pessoas menores de 18 anos e as que não tenham os seus documentos regularizados.

Em relação a pergunta proposta, acreditamos que a independência (social, trabalhista ou nacional) não depende de um “Estado”, nem das entidades financeiras, nem de nenhuma empresa privada, mas sim uma tomada de decisão que vem de baixo, à margem das instituições administrativas, dos partidos políticos ou dos sindicatos amarelos (https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/s/sindicatos_amarelos.htm), a fim de conseguir o controle do nosso trabalho e da nossa vida. Rejeitamos a criação de um Estado catalão, já que criticamos a ineficácia democrática presente dentro de um “Estado”, seja pela divisão de territórios sem levar em conta realidades locais, ou pelo centralismo, seja de Barcelona ou de Madrid. Também rejeitamos a criação de uma república, apesar das vantagens se comparamos com a situação atual. Entendemos que a república será continuista e inserida no sistema econômico. Se o que se busca com a criação de um novo “Estado republicano” é mais justiça e igualdade, o modelo neoliberal que defende uma parte importante do movimento independentista empurra a Catalunha para uma situação econômica similar a atual. Não queremos isto. Nós não queremos um processo destituinte do poder vigente e um processo coletivo que caminhe para a participação total da população na tomada de decisões para estabelecer forma de organização social e trabalhista, que blindem organizações horizontais e de decisões por assemblearias.

Compreendemos que é difícil entender uma organização social que não esteja blindada por um “Estado republicano”, mas é um desafio que temos que afrontar juntas se queremos ser totalmente livres e independentes. Atualmente encontramos exemplos deste tipo de organização, como municipalismo libertário, as comunas livres ou o confederalismo democrático. Encontramos também na história catalã exemplos de uma organização social emancipadora, como foi o comunismo libertário durante a Revolução Social de 36.

Texto original em catalão https://www.federacioanarquista.org/433-2/