Lendo: Neutralidade da Ciência e Determinismo Tecnológico. Renato Dagnigno

Existem algumas formas de classificar as abordagens teórico-históricas em torno da Ciência e Tecnologia (C&T). Uma delas é a proposta por Dagnino (2010), na qual as abordagens podem ser divididas naquelas focadas na C&T, essas subdividas em (i) neutralidade da C&T e (ii) determinismo da C&T; e aquelas focadas na sociedade, subdividas por sua vez em (iii) tese fraca da não neutralidade e (iv) tese forte da não neutralidade.

A ideia de neutralidade da ciência surge junto com a própria ascensão da ciência ocidental como oposta aos dogmas religiosos, a partir do século XV. Uma vez que a ciência passa progressivamente a substituir a religião como critério de busca da verdade, ela passa também a ser vista, no contexto do Iluminismo, como um processo inevitável, comum a todas as sociedades, ideia que coaduna com a noção de evolucionismo social. Dentro dessa percepção –  carregada de eurocentrismo – a ciência seria indiferente às determinações dos processos sociais bem como incapaz de determiná-los, por ser apenas uma parte (a “iluminação”) do caminho que todas as sociedades estão inexoravelmente destinadas a traçar. Como contraposição à ideia de neutralidade, está a ideia de determinismo tecnológico, trazida pelo marxismo e derivada da constatação de que a ciência e a tecnologia são preponderantes na determinação do processo social. Isto é, as forças produtivas e a tecnologia determinam as relações sociais. Outras abordagens, focadas na sociedade, são a tese fraca da não neutralidade, na qual é a sociedade que determina o processo de ciência e tecnologia, e a tese forte da não neutralidade,  adotada crescentemente pelo marxismo contemporâneo, na qual os processos se afetam e se determinam mutuamente. (DAGNINO, 2010).

Nuñez (2000 apud Dagnino, 2010) classifica como relativamente independentes a Revolução Científica do século XVII e a Revolução Industrial do século XVIII, ao passo em que considera como plenamente dependentes e cada vez mais imiscuídos os processos de ciência e tecnologia a partir da segunda metade do século XX. Atualmente, a ciência não corresponde mais à imagem de indivíduos isolados em busca da verdade, descolados do processo de desenvolvimento tecnológico, da mesma forma que “…C&T têm sido crescentemente impulsionadas pela busca de hegemonia mundial das grandes potências e pelas exigências do desenvolvimento industrial e as pautas de consumo que ali se geram e difundem para as sociedades que imitam esses processos de modernização…” (Dagnino, 2010, p. 25). Assim, a mudança histórica na relação entre ciência e tecnologia parece ser não somente quantitativa – observe-se, por exemplo, a diminuição histórica do tempo transcorrido entre invenção e inovação -, como também qualitativa – as empresas e a busca pelo lucro guiando grande parte do processo de invenção e inovação. Consequentemente, a linha divisória espacial entre ciência pura e aplicada também se turva, vez que a empresa e a lógica concorrencial adentram cada vez mais a universidade, invadindo e determinando inclusive a chamada “ciência básica”, criando a tecnociência, e explicitando cada vez mais a não neutralidade da C&T.

A noção de neutralidade da C&T deriva do pressuposto de que a ciência é a revelação da verdade contida na natureza, de forma que ela não poderia assim carregar valores. Como ressaltado por Dagnino (2010), “a ideia da neutralidade parte de um juízo fundacional difuso, ao mesmo tempo descritivo e normativo, mas abarcante e potente, de que a C&T não se relaciona com o contexto no qual é gerada. Mais do que isso, que permanecer dele sempre isolada é um objetivo e uma regra da ‘boa ciência'” (Dagnino, 2010, p. 39).  Uma das consequências dessa ideia é a impossibilidade da coexistência de diversas C&T que reflitam diversos ambientes étnico e culturais, uma vez que haveria apenas “uma verdade”, uma C&T correta, à qual tudo deve se adaptar progressivamente. Sendo assim, um paradigma seria substituído racionalmente por outro, em direção a verdade e conhecimento únicos, como proposto por Thomas Khun, pavimentando o caminho também único e cumulativo do progresso. A neutralidade da C&T, que baseia a ideia de progresso, supõe que um mundo ideal seria construído pelo emprego da lógica e da racionalidade, de forma que as questões sociais poderiam ser tratadas como científicas, eliminando os conflitos acarretados por paixões, ideologia e política, com a finalidade última do aumento da eficiência.

Tal ideia é tão atraente tanto quanto capciosa. De fato, a natureza física, química e biológica do planeta é unica e incontornável. No entanto, argumentar a partir daí que a C&T segue a mesma lógica é uma extrapolação falaciosa. Heiddeger argumenta que mesmo que uma sociedade atingisse avançado grau de racionalidade, a tecnologia é inerentemente valorativa, de forma que o resultado seria a criação de uma distopia, com horrores sociais produzidos em nome de uma eficiência nada neutra (FEENBERG, 1999b apud DAGNINO, 2010). Isto é, a ciência é neutra enquanto conhecimento, mas nunca o será enquanto instituição, feita de atores sociais, imbuídos de valores, em uma sociedade capitalista.

Argumentos subjacentes à ideia de unidirecionalidade inevitável do progresso tecnológico:

  1. simultaneidade das inovações e invenções em distintos locais
  2. a combinação de inovações preexistentes para a criação de uma terceira inovação seria um caminho natural
  3. a busca pelo aperfeiçoamento dos artefatos ao longo do tempo, por meio de mudanças sucessivas e contínuas de projeto
  4. entendimento do conceito de eficiência como sendo neutro, ao refletir apenas uma proporção entre inputs e outputs, que independeria de qualquer fator social.
  5. análise do desenvolvimento tecnológico apenas como um produto final, ignorando os processos de chegada até ele.
  6. toda a tecnologia seria derivada da ciência pura, que é a única fonte da verdade. Ou seja, a ciência pura está acima de todos os demais processos cognitivos e esses não servem para o desenvolvimento tecnológico.

Determinismo tecnológico no marxismo

O entendimento do determinismo tecnológico em Marx é matéria controversa, explorada por diversos autores. Ao mesmo tempo em que fica clara a importância da tecnologia e das forças produtivas na determinação dos modos de produção e nas relações técnicas e sociais de produção, também infere-se da sua obra que as relações sociais de produção por vezes constituem travas à mudança tecnológica, tendo em vista que existe uma contradição dialética entre relações sociais de produção (relações de propriedade) e forças produtivas. Quando tal contradição se exacerba é o momento em que um modo de produção pode ser superado. Apesar dessa contribuição fundamental à análise da tecnologia como determinadora dos processos sociais, autores como Gramsci e Lukács interpetam que Marx não pode ser considerado um determinista tecnológico, pois reconhece a dialética entre as relações de produção e as forças produtivas. Dessa forma, fatores como o nível de salários, os mercados existentes e a taxa de juros influenciam a escolha das técnicas a serem utilizadas.

No entanto, dentro da tradição marxista uma linda determinista se fez presente com bastante ênfase, seja porque tal concepção favorecia a ideia de que a transição ao socialismo era também um passo teleológico inevitável e que para tanto bastava-se apropriar da tecnologia.

“O fato é que essa concepção parece ter sido uma das razões que afastaram a C&T do debate e que reforçaram uma visão tão instrumental a ponto de não poder ser desconsiderada na análise da experiência do socialismo real. […] Aceitar que nenhuma sociedade para se desenvolver poderia adotar opções tecnológicas distintas às dominantes nas sociedades mais avançadas, que seria as que ensejam maior produtividade do trabalho, levou não apenas ao não-questionamento da forma como se processava no capitalismo o desenvolvimento da C&T, entendida de fato como única, mas levou também que se tentasse, com pouco sucesso como se sabe, sua mera utilização para a construção do socialismo” (DAGNINO, 2010, p. 80-81)

Determinismo tecnológico na economia neoclássica

Enxergam a tecnologia como uma caixa preta de inputs e outputs, de forma que apenas implicitamente o processo decisório do agente mediador, o empresário, pode ser visto como uma sutil consideração social do processo.

Visão Schumpeteriana

Produz ruptura com a visão neoclássica e introduz características sociais, ao passo que considera a irracionalidade dos agentes responsáveis pela inovação, as qualidades que o levam além da maximização de lucros, ampliando o espectro de tecnologias existente, e o papel desempenhado pelo desequilíbrio da concorrência imperfeita, os oligopólios, na criação tecnológica.

Argumentos contrários ao determinismo:

  1. tecnologia é produto de disputas, controvérsias e fracassos, acidentes, obsolescência programada e path dependecies, todos dependentes do meio social.
  2. verifica-se rendimentos crescentes de adoção, isto é, a tecnologia não é selecionada necessariamente por ser eficaz, mas se torna eficaz por ter sido adotada
  3. os inputs e outputs não são os mesmos em todos os locais, portantos são dependentes tanto da geografia quanto da cultura
  4. a tecnologia muitas vezes é criada não com base na ciência pura, mas sim, advém da prática passada por gerações por meios culturais e conhecimentos tradicionais
  5. Historiadores da relação do trabalho negam que o desenvolvimento tecnológico demande por exemplo a divisão do trabalho e mostram como a tecnologia é determinada pelas relações de força entre patrões e trabalhadores (Lander, 1994 apud Dagnino, 2010).

 

Enfoques sociais da C&T

A tese fraca da não-neutralidade postula que uma tecnologia que nasce no seio de determinada sociedade é a ela funcional e internaliza suas características, contribuindo para o desenvolvimento e permanência daquela sociedade e suas estruturas políticas e culturais. Advinda principalmente do construtivismo e do marxismo. Entende a necessidade da participação popular na apreensão da construção da C&T que é inerentemente cultural e política.

A tese fraca rejeita a ideia de que a tecnologia é neutra e bastaria analisar o sistema economico e social no qual ela está inserida, mas sim, busca analisar a tecnologia como portadora e manifestadora de conteúdo político.

A tese forte da não neutralidade acata a mesma premissa, mas argumenta ainda que não é desejável e nem adequada a transferência de uma tecnologia ou sua apropriação por outra sociedade que compartilha de outros contexto, cultura e objetivos.

 

 

 

 

 

 

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