Indivíduo e História (ou porque estudar história importa)

Eu ando pensado muito no nosso tempo de vida versus o tempo histórico, deve ser a idade. Também deve ser porque acho que grande parte da nossa ansiedade vem do fato de que o cotidiano se acelera cada vez mais, mas a história ainda tem o seu tempo próprio. Como fazer um debate evoluir de uma geração pra outra, fazendo com que um ponto mínimo de consenso ultrapasse o ponto mínimo anterior de consenso? Como passamos de uma geração que achava a escravidão normal para uma que não acha? Como passaremos de uma geração que se preocupa mais com violência dos manifestantes para uma que se preocupa mais com violência de Estado ou com a violência da desigualdade?

O papel das instituições dominantes é crucial em fazer uma geração desconhecer ou ignorar o que a outra conquistou e como ela conquistou, justamente porque isso retarda o ponto de partida das discussões, que ficam fragmentadas em indivíduos e episódios, mas que na verdade fazem parte de um longo processo histórico único. Essas discussões sobre greve, piquete, direito de ir e vir, coletivismo versus individualidade, violência nas manifestações versus violência estatal cotidiana, elas são as mesmas pelo menos desde a revolução francesa, e com variações, desde que existe Estado. Eu leio uns livros do século XVIII e parece que estou lendo as discussões do facebook, só que escritas com mais boniteza…

As pessoas discutem como se elas fossem coisas novas e únicas porque as peculiaridades das grandes mudanças históricas não são encorajadas a serem debatidas de forma corrente pelo conjunto da população. Pelo contrário, são processos de quebra da normalidade, e por isso, são velados, deturpados e romantizados, até que as pessoas se vêem no meio desse movimento histórico, que viola o seu cotidiano, e de repente têm que pensar e dialogar sobre isso, com a cabeça de quem foi ensinado a não pensar nisso. E se começa do zero e com os conceitos pré-estabelecidos pelas instituições dominantes, que são destinadas a blindar o cotidiano de qualquer desvio, por mais surreal que o próprio cotidiano seja.

Então o nosso papel deve ser esse, de manter o debate aceso, os movimentos históricos às claras, mostrar as evidências, e tudo que já foi debatido tantas outras vezes no passado, para que, talvez, a geração futura parta de um ponto de vista diferente.Creio que a minha é uma geração de pelegos porque a gente nasceu ainda sobre a influência de um relativo pacto social que estava acontecendo mais ou menos até os anos 1970. Atualmente, vivemos os resultados do fim disso e o acirramento dos conflitos, cujo lado positivo é a potencialidade de reativar debates e formar uma próxima geração de pessoas conscientes. Escrevo isso porque fico um pouco esperançosa de ver nessas redes pessoas mais novas se deparando pela primeira vez com conflitos sociais e tendo que refletir sobre eles talvez mais cedo do que eu tive. Escrevo também porque é cansativo denunciar sempre as mesmas coisas, e a velocidade das mídias e o acirramento dos conflitos, ambos crescentes, vão tornar tudo mais extenuante ainda pra quem luta, mas deve valer a pena