A prisão de Temer, a Lava-Jato e o poder que não é popular

Isabela Prado Callegari

27 de Março de 2019

A recente prisão preventiva de Michel Temer, no âmbito da operação Lava-Jato do núcleo Rio de Janeiro, foi recebida pela população no geral, e mesmo por alguns setores dentro da esquerda, como comprovação de suposta eficiência punitiva e isenção partidária da operação. Como enunciou a manchete de capa da Revista Época dessa semana, esse seria o início de uma Era de tolerância zero contra a corrupção. Tal recepção popular (ou criação narrativa midiática) do fato, na realidade, ilustra como a Lava-Jato logrou ser um instrumento político muito mais abrangente e poderoso do que poderia ser imaginado inicialmente. Uma análise minimamente aprofundada revela que as prisões efetuadas na última semana de modo algum demonstram uma vitória da pressão popular ou uma intransigência contra a corrupção.

O judiciário e, em especial, a Lava-Jato, segue promovendo casuísmo jurídico e judicialização da política, respondendo a demandas de determinadas classes dominantes. Assim foi com o impeachment da presidente Dilma Rousseff e a prisão do presidente Lula, ambos possibilitados por uma série de decisões jurídicas amplamente questionáveis e por notórias manobras de votação no STF. Tais fatos, longe de atenderem ao clamor das ruas ou à luta do povo, responderam sim, a uma articulação entre o grande empresariado nacional e atores políticos internos e externos, insatisfeitos em dividir parcelas da renda nacional com uma valorização do salário mínimo, e requerendo maior rapidez na extração de lucro, venda de patrimônio e na aprovação de reformas como a trabalhista e a previdenciária. Nesse tocante, as manifestações de rua ou os ânimos inflamados de eleitores à direita, foram apenas utilizados como legitimadores de uma narrativa já determinada e em processo de execução.

Do mesmo modo, prende-se Michel Temer sob a alegação de chefiar uma vasta organização criminosa há 40 anos. Se uma organização tão ampla e longeva existia sob seu comando, por que sua prisão ocorre somente após o exercício pleno de seu mandato como presidente, no qual aprovou retiradas brutais de direitos, como Reforma Trabalhista, PEC do Teto e Reforma do Ensino Médio? Se diversas outras alegações e processos mais embasados e danosos o incriminam a tempos, por que foi preso repentinamente com base em uma acusação menos grave e esperada? Por último e mais fundamental, Michel Temer foi preso na sequencia de duas notáveis derrotas para a Lava-Jato e seu método de ação, quais sejam, a decisão do STF de que crimes de corrupção e caixa dois devem ser julgados pela justiça eleitoral, e a anulação, por Raquel Dodge, do acordo entre a Força Tarefa da Lava-Jato e a Petrobras. A primeira decisão inviabiliza uma premissa de ação da Lava-Jato e Sergio Moro, a de que os dispositivos estabelecidos pela Constituição são incapazes de lidar com a corrupção. A segunda, obstaculiza o acordo flagrantemente ilegal ocorrido nessa operação, que representa a tentativa mais crua de transferência de recursos públicos para objetivos privados de dominação política e imperialista já tentados na história recente do país.

Por meio do supracitado acordo, a Força Tarefa da Lava-Jato em cooperação com o departamento de justiça dos Estados Unidos, estabeleceu multa de R$ 2,5 Bi à Petrobras, a ser retirada diretamente do caixa da empresa. Parte desse montante seria destinada ao ressarcimento de perdas que investidores estadunidenses possam ter sofrido com atos de corrupção, e outra parte, seria voltada à criação de um fundo de combate a corrupção e propagação de boas práticas, a ser gerido por fundação de direito privado de responsabilidade de Deltan Dallagnol e do Ministério Público Federal de Curitiba. Ou seja, um montante de dinheiro, mais expressivo do que o fundo público eleitoral destinado a todos os partidos políticos, seria retirado diretamente do caixa da Petrobras para ser gerido por uma fundação, explicitamente ilegal, controlada pelo Ministério Público Federal de Curitiba (outra figura jurídica auto proclamada), cujos interesses político-partidários são explícitos. Enquanto alguns analistas consideram que Sergio Moro, na figura de ministro, já se encontra em campanha presidencial para o próximo pleito, o apoio dos Estados Unidos tanto à sua candidatura, quanto à criação desse fundo e a essa entidade de direito privado, mostram os caminhos tanto mais escusos quanto evidentes que a operação Lava-Jato vem tomando.

Desse modo, não nos é útil qualquer ingenuidade analítica que suponha ser essa prisão uma resposta a luta popular. Muito antes, tal fato demonstra o capital político que a Lava-Jato detém e como qualquer ator, por mais relevante que possa ter parecido em determinado momento, é descartável frente ao que demanda o interesse econômico e imperialista do momento seguinte. Por agora, parece necessário ao poder estabelecido que Temer seja carta fora do baralho e que sua prisão renove o fôlego declinante do governo Bolsonaro. Ao mesmo tempo, é interessante mostrar o poder de fogo do punitivismo e oportunismo jurídico para transbordar a tradicional barganha entre executivo e legislativo, que não está sendo favorável ao governo de Bolsonaro nesse momento. Para que seja aprovada a nefasta reforma da previdência, impulsionada pelo mercado financeiro na figura de Paulo Guedes, é necessário que se pressione o Congresso por meio do medo, haja vista que outro preso nessa semana, Moreira Franco, é genro do atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e que diversas outras figuras que hoje antagonizam com Bolsonaro, são possíveis alvos da caçada da Lava-Jato. Tudo isso afeta sobremaneira os interesses da população, mas nada disso responde a clamores populares. A luta contra a retirada de direitos deve seguir mais firme do que nunca, mas inclusive para que tal luta seja efetiva, há que se ter a medida certa de todas as forças políticas.

Brazil of late capitalism

Até quando essas pessoas que detêm poder acham que vão conseguir forçar essa panela de pressão, chamada desigualdade social, e manter toda essa calma? Toda essa serenidade vintage descolada de um food truck?
O centro hoje não tinha vendedores ambulantes, não tinha morador de rua, só tinha policial. Em uma ação da Brigada Militar que, declaradamente, não consultou a prefeitura, o comandante se auto delegou o aval de tirar todos os pertences de quem morava embaixo do viaduto, já que, de acordo com ele, só tinha traficante, usuário, bandido, e isso lhe dá esse poder.
Orquestradamente com empresários, no dia seguinte, haverá uma ocupação do espaço público (olha que democrático) com diversos food-beer-whatever-trucks, que deverá se repetir em outros dias, de acordo com o lucro que rolar… Outro dia já rolou reintegração da aldeia zumbi dos palmares, que tinha sido feita por moradores de rua. Para onde foram as pessoas? E aqueles outros morando em frente ao Banco do Brasil, que também foram saídos dali para dar lugar a uns tapumes, a pedido do banco?
Eles sabem responder quais food trucks serão colocados, mas nunca sabem dizer para onde foram os pertences e as pessoas retiradas. Prioridades né. Bom, as pessoas não somem, elas continuam por aí, por mais que não agrade a vista como caminhões estáticos de comida e cerveja.

Eles usam black tie…

Apareceu, patrocinado no meu facebook, o primeiro vídeo de campanha do Meirelles. Se colocando obviamente, de acordo com o esperado, como “centrão”, como opção para aqueles que não concordam com “a extrema esquerda que diz que tudo foi um golpe” e nem “com a extrema direita que quer resolver tudo na bala”…

Bom, faltou ele dizer que está com os ruralistas, que resolvem tudo na bala e no veneno. Faltou dizer que inclusive é ruralista também. Faltou dizer do seu salário fixo e gordo, dos benefícios extras e dividendos não tributados que caem na sua conta, e de como esse senhor é um dos grandes arquitetos da reforma trabalhista. Do seu plano de previdência gringo, que sustentaria muitas gerações de uma família comum, e de como ele empurra uma reforma da previdência pra população. Os livros de história vão coloca-lo como um dos grandes personagens da brilhante pec do teto, que apenas começa a demonstrar seu poder de pauperização e destruição social, mas na fossa em que estamos é normal que uma pessoa dessa se coloque como “centrão”, “isentão”, distante da “direita raivosa”, porque afinal ele é um daqueles homens de terno, “intelectualizados” e “técnicos”.

Tão assassino quanto, resolve tudo na bala do mesmo jeito. Apenas tem mais consciência do que está fazendo e terceiriza o sujar das mãos, o que eu considero muito pior e mais sádico. Triste é ver amigos meus curtindo essa página… Coloco no mesmo nível de bolsominions.

Retrofake news

Eu acredito que existe uma estratégia já bem avançada de desinformação e confusão da opinião pública por parte da direita, que está em linha com as previsões de quem estuda “fake news” e distopias tecnológicas. Lembro que li em algum lugar sobre apatia informacional, um cenário no qual a proliferação de notícias, falsas e verdadeiras, somada a uma segunda rodada de proliferação de checagem da sua veracidade, leva os indivíduos a abrirem mão de se informar, tamanha a complexidade que isso adquire. Além disso, existe ainda a possibilidade de trabalhar com as “fake news” de maneira reversa. Alguém pode fazer, ou dizer, ou aprovar algo absurdo e em seguida dizer que as notícias a respeito são “fake news”, quando na verdade não são. No entanto, uma vez dito que “é fake”, as pessoas decoram esse último status e já não se fala mais disso ou a notícia inicial perde sua credibilidade mesmo estando correta.

De cabeça aqui lembro de dois episódios recentes em que isso ficou muito claro. Escrevi um tempo atrás sobre a notícia da venda do aquífero guarani “para a coca-cola e nestlé”. Essa notícia correu de forma um tanto distorcida e gerou muita polêmica e mobilização. Logo em seguida, um monte de site de direita dizia que a notícia “era fake” e isso fez ela perder toda a sua credibilidade e morrer. No entanto, como eu disse na época, não era exatamente assim. É como se a primeira notícia tivesse sido plantada de forma deliberadamente distorcida, para em seguida ser descredibilizada como fake. Enquanto isso, na verdade, ainda corre de forma acelerada uma proposta do Tasso Jereissati (PSDB), que introduz “mercados de água” não só no aquífero guarani, como no país todo. A proposta modifica um artigo que atualmente proíbe a alienação de águas, resultando em um ambiente mais privatista e excludente com relação aos recursos do que o que já existe hoje.

A mesma dinâmica pode ser observada na semana passada e nessa semana com relação ao projeto em vias de ser aprovado que flexibiliza (mais ainda) a regulação de agrotóxicos no país, o PL do Veneno. Primeiro, por força dos movimentos de agroecologia, a bancada ruralista não havia conseguido colocar o projeto em votação. Em seguida, espalharam vídeos nas redes sociais e whatsapp dizendo de forma descaradamente mentirosa que a campanha dos movimentos de agroecologia contra o projeto era baseada em “fake news”. A partir daí, uma comissão especial da Câmara aprovou o projeto e, logo na sequencia, o deputado da bancada ruralista Luiz Nishimori (PR) encaminhou outro projeto que dificulta de forma bizarra a venda de orgânicos para produtores que não estejam cadastrados como agricultores familiares, colocando por terra, por exemplo, a compra de orgânicos por parte do governo para escolas, dentre outras coisas.

De forma muito estranha, a notícia que circulou, inclusive na grande mídia, foi uma interpretação totalmente distorcida desse projeto, que alegava que ele “proibia a venda de orgânicos nos supermercados”. De fato, o projeto não diz isso, o que não significa que ele não seja um projeto tenebroso e tão ruim para a sociedade quanto. No entanto, da forma como isso foi noticiado, parece que a proliferação da notícia distorcida foi um meio de desviar a atenção não apenas da crueldade desse projeto como da iminente aprovação do PL do Veneno.

Então, a moral da história é: a gente ta fudido, eles irão nos envenenar o quanto puderem, eles querem sim cercear mais ainda a venda de orgânicos, e nós temos que ficar cada vez mais atentos para combater não apenas fake news, como o fake da fake news. Enquanto a gente vai se afundando na lama privatista e destruidora de direitos, tenho colegas “cientificistas isentões” que estão ocupados em desmascarar fake news e falar contra “os desinformados que compartilham besteiras”, mas não conseguem enxergar como a crença em um rigor científico e informacional despolitizado é facilmente manipulada para servir aos piores interesses políticos e de classe. O mundo é complexo demais para esse cientificismo raso, bem como é injusto demais para tamanha despolitização, para não ter lado nessa luta.

No puedes comprar la lluvia

A tal da história da privatização do Aquífero Guarani é fake, pero no mucho… De fato, não existe, assim literalmente, uma negociação de privatização sendo feita diretamente com a coca-cola e a nestlé, e foi isso que os sites e-farsas e Boatos.org se propuseram a desmentir. No entanto, existe sim, em consulta no Senado, uma proposta do Tasso Jereissati (PSDB), que introduz “mercados de água” não só no aquífero guarani, como no país todo. A proposta modifica um artigo que atualmente proíbe a alienação de águas, resultando em um ambiente mais privatista e excludente com relação aos recursos do que o que já existe hoje (que não pode ser considerado totalmente público).

A justificativa para o projeto, como qualquer justificativa de mercado para alocar recursos naturais escassos e de primeira necessidade, é bizarra: “promover alocação eficiente dos recursos hídricos, especialmente em regiões com alta incidência de conflitos pelo uso de recursos hídricos”. Quer dizer, tem alta incidência de conflito, então leva quem tiver mais dinheiro. Faz bastante sentido mesmo, ainda mais em se tratando de água!

Para tornar os recursos hídricos nomeadamente privatizados, tal como ocorre no paraíso neoliberal chileno, seria necessário uma PEC, mas isso é coisa que a gente sabe que não é impossível nem improvável de ser feita no desgoverno em que vivemos.

Da mesma forma, não é porque coca-cola e nestlé não estão de fato comprando o aquífero hoje que não exista interesse crescente e encontros constantes dessas empresas e de outras com o governo para discutir como modificar a legislação e lucrar em cima da água e outros recursos. Nesse mês, grandes empresas participam do fórum mundial das águas, custeado com dinheiro público e organizado para empresas pelo governo, negando voz aos movimentos sociais. Para se contrapor a isso, foi organizado o Fórum Alternativo Mundial da Água, pela sociedade civil organizada, e com dinheiro de doações: http://fama2018.org/.

Mientras, fiquemos com a memória e a força dos civis mortos por lutarem contra a privatização da água em Cochabamba e com uma música de luta para acalentar o coração.

Presentes

(Post de 15/03/2018)

Três dias atrás Paulo Sérgio, representante quilombola, foi assassinado por ter denunciado que a empresa norueguesa Hydro, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo, jogava reiteradamente rejeitos químicos nos rios de Barcarena. Paulo Sergio havia solicitado proteção que foi negada pelo governo do Pará. Ele ficará presente na história ao lado de tantos outros assassinados políticos no Brasil, país que é o mais perigoso do mundo para ambientalistas. Ontem Marielle, relatora da comissão da intervenção no RJ, foi assassinada por ser uma vereadora de luta, que não se calava, que denunciava a violência policial e das milícias.

Essas atrocidades me lembram as inúmeras discussões que já tive com pessoas que me dizem “vocês, de esquerda, militantes, só reclamam e não propõem nada” ou “vocês só falam e não fazem nada”. Essas pessoas infelizmente desconhecem que as ações e proposições daqueles que lutam contra o poder são invisibilizadas ou inviabilizadas pelo dinheiro, pela lei burguesa, pela propaganda ou pela violência explícita, de forma que é justamente por isso que eles creem que “só falamos e não fazemos”. Pessoas de luta fazem coisas sobre-humanas e fazem o tempo inteiro, vivem para isso e não raro dão a vida por isso. Contra todas as adversidades e violência, fazem coisas lindas que todos os dias são apagadas e têm que ser reconstruídas do zero, com uma força inacreditável. E aqueles que nasceram com a coragem necessária para estarem na linha de frente, falando e fazendo, são frequentemente calados à bala, seja por milicianos, polícia, ruralistas, políticos, pessoas ou empresas poderosas.

Estamos vivendo um governo não eleito que retira direitos todos os dias e massacra a população com uma política privatista e neoliberal voraz. Em um país com pessoas vestindo camisetas pró-bolsonaro na rua, querendo mais armas para todos e extinção das minorias. Podemos não ser as pessoas mais qualificadas ou mais corajosas para fazermos a luta necessária e batermos de frente com isso, mas são os nossos corpos que estão aqui nesse momento da história, e coragem e posicionamento é o que esse momento exige de todos que se importam. As vidas e as mortes de Marielle, Paulo Sérgio, e de tantos pequenos agricultores, indígenas e militantes não serão em vão. A luta deles nos alimenta e a voz deles ecoa muito mais forte cada vez que a violência as tenta calar. Sigo muito triste no dia de hoje, mas com muito mais força do que ontem.

Falta de imaginação sociológica

Eu tenho pra mim que poucas pessoas são intencionalmente “más”, no sentido mais primário do termo, como as que intencionam infligir mal aos outros para o prazer ou benefício próprio. Claro que elas existem, mas acho que são minoria. Ainda mais quando se trata de sociedade e da defesa de ações, mais ou menos genéricas, que afetam desconhecidos por caminhos, muitas vezes, também desconhecidos. A maioria das posições defendidas no debate público se dão pela confiança de que aquela é a melhor solução social, ou pela mera repetição de crenças profundamente arraigadas, não questionadas dentro de si, ou por não enxergar a vida do outro, ou por não compreender os mecanismos sociais que a influenciam e nem como esses se relacionam com seus próprios privilégios, benefícios, opressões.
O rico investidor entrevistado nessa matéria é um bom exemplo. Eu considero honestas as suas respostas, e acredito até na sua boa índole. Acontece que seu pensamento (profundamente disseminado no senso comum) é de uma ingenuidade que tem efeitos perversos no tecido social. Ele crê que atrocidades cometidas em nome de lucro para investidores são uma exceção à regra. Uma regra, por sua vez, de investidores e empresários éticos, responsáveis, compassivos, que por alguma razão misteriosa irão fazer mais do que a lei determina. Ele mesmo diz que saiu da Estácio de Sá porque não concordava com essa busca de lucro prejudicial. De acordo com ele, “o mercado financeiro quer resultados no curto prazo e muitas vezes isso fere ‘um pouquinho’ a qualidade” e “quem acabou com o Fies foram os próprios donos das instituições. Em vez de fazerem o Fies cumprir sua função social, de atender o aluno que não podia pagar, eles ofereceram a quem podia pagar.”
Ignorando por um segundo que a regra do capitalismo é unicamente o lucro, e supondo que a maioria dos empresários subitamente pense no bem comum, qualquer construção de uma sociedade deve partir da pergunta: o que acontecerá quando eventualmente esse não for mais o caso? Quando eles forem substituídos por seus filhos ou por outros empresários, que eventualmente queiram buscar mais lucro e se lixar pro bem comum? Ou quando o cenário econômico mudar e de repente não der mais pra ser tão “bonzinho”? A sociedade não pode estar sujeita ao bom humor ou à ética variável de uns poucos. E também não pode ficar sujeita à capacidade pífia de consumidores precarizados e empobrecidos em “boicotar” empresas “antiéticas”.
É pra isso que existem leis, que, por mais imperfeitas que possam ser, são construídas coletivamente, baseadas na luta e nos acontecimentos históricos, necessárias para estabelecer o mínimo de dignidade aos trabalhadores, defender a parte fraca e garantir que o destino de milhares de pessoas não fique na mão da boa vontade, índole ou humor de uns poucos. Afinal, de acordo com os próprios ideólogos capitalistas, se a “natureza” do ser humano é ser ruim, é uma inconsistência lógica e desonestidade intelectual defender que a ética individual dos mais abastados irá nos salvar. Não é difícil entender isso, mas parece que é cada vez mais necessário explicar.

FGV: hipocrisia, poder e dinheiro

A FGV (Estado Mínimo, There’s no Free Lunch, R$3500 reais de mensalidade) recebe por meio de suas consultorias e repassa para os seus pejotizados inúmeras emendas parlamentares e recursos públicos que somam mais de R$280 milhões, apenas nesse ano. Muito mais do que o valor destinado às universidades federais e estaduais, que estão paralisadas por, supostamente, vejam só, falta de recursos! Enquanto professores da UERJ fazem fila para a cesta básica e viram motoristas de uber, os professores da ilibada FGV dão discursos na globonews sobre austeridade, sobre apertar o cinto e cortar na carne. As licitações são dispensadas, porque a FGV é uma instituição de ‘notório saber’. Atentem à justificativa da emenda: FGV é uma reconhecida instituição, blablabla, DEFENSORA DA IDEOLOGIA DA DESIGUALDADE PELO MÉRITO.

Essa situação já é assim de longa data (lembro de um amigo da UFRJ que foi o primeiro a me falar que isso era assim a anos). A prática e promiscuidade com recursos públicos é tão tradicional quanto essa casa de notório elitismo.

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(Post por David Deccache)

Ontem escrevi um post sobre as emendas que foram apresentadas na Comissão de Finanças e Tributação da Câmara em favor da Fundação Getúlio Vargas, porém não detalhei e nem apresentei toda a documentação. Logo, reescrevo o post com maiores explicações técnicas e com a documentação anexada.

Sobre a documentação, uma primeira observação é essencial: as emendas que apresento aqui serão encontradas com alterações no site da Câmara – basicamente sumiram com o nome “FGV” de algumas emendas. O ponto é que as emendas que foram apresentadas na seção das 10 horas da manhã foram modificadas no site após a seção. Isso aconteceu, muito provavelmente, por conta do posicionamento energético do Deputado Edimilson (PSOL) contra este absurdo e, também, por causa da divulgação pública dos dados. Por sorte havíamos imprimido e arquivado as emendas originais apresentadas.

Outra observação importante é que temos pelo menos uma emenda que, apesar de não cumprir requisitos básicos necessários, foi aprovada – ou seja, foi aprovada ilegalmente. Explico: primeiramente, as emendas que estou me referindo são “emendas de comissão” . Cada comissão permanente pode apresentar até 8 (oito) emendas, sendo 4 (quatro) de apropriação e 4 (quatro) de remanejamento. Fora isso, há requisitos mínimos a serem cumpridos para a aprovação de emendas de comissão, como por exemplo:

(i) As emendas devem ter caráter nacional (art. 44, II, Resolução n° 1/2006 do Congresso Nacional);

(ii) conter, na sua justificação, elementos, CRITÉRIO E FÓRMULAS que determinem a aplicação dos recursos, em função da população beneficiada pela respectiva política pública, quando se tratar de transferências voluntárias de interesse nacional.

(iii) é vedada a destinação de emendas a entidades privadas, salvo se contemplarem programação constante do projeto (art. 44, II, Resolução n° 1/2006 do Congresso Nacional). Como a FGV não constava no projeto original, não poderia receber emendas.

A Emenda 01/17 (em anexo), do Deputado Júlio Lopes, no valor de 40 milhões que já foi aprovada na CFT, não cumpre nenhum dos três requisitos acima. O primeiro é descumprido explicitamente já que no campo localidade beneficiada, consta o Estado do Rio de Janeiro, quando há a obrigatoriedade do campo ser preenchido , expressamente, com o termo “Nacional”. Já a justificativa, claramente, não cumpre os requisitos do segundo critério. Por fim, a FGV é instituição privada que não constava no projeto original, logo não é apta a receber tais recursos, o que viola a terceira condição.

O resumo das emendas apresentadas – só no âmbito da CFT – é o seguinte:

• Emenda n° 1/2017, do dep. Júlio Lopes – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 2/2017, do dep. Benito Gama – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 4/2017, da dep. Simone Morgado – valor de R$ 110.385.104,00 (Essa emenda foi destinada à ação orçamentária genérica de “Gestão de políticas econômicas e fiscais”, mas na justificativa está expressa a destinação à FGV);
• Emenda n° 8/2017, do dep. Luis Carlos Heinze – valor R$ 40.000.000,00;
• Emenda n° 11/2017, da dep. Soraya Santos – valor R$ 50.000.000,00

No total foram apresentadas emendas no valor de mais de 280 milhões de Reais. A título de comparação, o orçamento executado em 2017 de várias grandes Universidades Públicas é bem inferior a isso. Por exemplo: UNB com 183 milhões executados; UFF 208 milhões; UFRRJ com 73 milhões; UFMG 238 milhões, dentre vários outros exemplos.

O exemplo mais emblemático é o da UERJ: a reitoria alega que para voltar ao funcionamento normal é preciso de 90 milhões. Os alunos, trabalhadores e professores da UERJ estão passando por uma situação de verdadeiro caos. A greve já dura meses e os professores , alunos , servidores e terceirizados não sabem quanto e nem quando irão receber suas bolsas e salários. É uma calamidade. Enquanto isso, na CFT, é apresentado 280 milhões para uma Instituição Privada.

Por fim, para o texto não ficar muito cansativo, vale destacar a justificativa de umas das emendas, onde alega-se que a FGV merece 50 milhões já que, dentre outros, DEFENDE O DIREITO À DESIGUALDADE PELO MÉRITO (FOTO)

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El patrón não poderia ser autuado pelas novas velhas leis escravocratas brasileiras

A casa grande está em festa. Impressionante. Se tiver sendo ameaçado por dívida, em condições degradantes, trabalho forçado, exaustivo, tá tudo bem. Só é trabalho escravo se tiver uma bola de ferro no pé, ou um capataz armado. A ideologia por trás é que “tudo é individual”, “tudo é escolha do indívíduo”. “Tá ali porque quer”, “tá de uber porque quer”, “tá cortando cana porque quer”, “faz reorientação sexual se quiser, não é obrigado”. Tudo é escolha, nada é responsabilidade, coerção, poder assimétrico, não vivemos em sociedade, é uma ilusão. Brasil, 2017.

 

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