Anarquismo, Catalunha

Embat: um 11 de setembro para destituir

Texto original em catalão no site do Embat: http://embat.info/embat-davant-un-11s-destituent/

Para nós, libertárias do Embat, o dia 11 de setembro simboliza uma data para lembrar todas aquelas pessoas que, neste país, se levantaram contra a opressão para defender as liberdades ao longo dos séculos, lutando contra as estruturas dominantes. Graças à estas pessoas, sistematicamente reprimidas com brutalidade e enterradas como anônimos em foças comuns, hoje podemos manter a chama de uma vida livre.
Este 11 de setembro, como sempre, encontra-se dentro de uma grande onda de mobilização popular que desde diferentes entidades e tradições políticas demandam cotas maiores de soberania. Defendemos como sempre a participação direta de toda a população nas questões que afetem a elas e portanto defendemos o direito de autodeterminação que o nosso povo ha de exercer no dia 1 de outubro. Sendo assim, apartir do processo constituinte que começaria o dia 2 de outubro, desejamos poder ampliar este desejo a todos os âmbitos do cotidiano. Será um momento para reescrever as regras que pautam a nossa sociedade e para colocar na mesa modelos diferentes de Estado. Apesar de tudo, isso dependerá do que acontecerá durante o mês de setembro, que será crucial.

Temos um cenário com um “regime de 78” (http://vientosur.info/spip.php?article7571) que já não é capaz de governar de forma pacífica e convencional a Catalunha. Cada vez mais camadas sociais estão deixando de acreditar na legitimidade do “regime” para ditar leis, para dizer o que devemos fazer. A Generalitat (governo catalão) e muitas prefeituras atuam praticamente como instituições de um país independente. A classe média, os jovens, e parte da classe trabalhadora não sentem mais nenhuma vinculação com o Estado espanhol. O governo central tentará revertir isso no grito de “unidade à pátria” e de “indivisível nação espanhola”, com a contribuição lamentável da maioria da esquerda espanhola e catalã, que podiam aproveitar a conjuntura para derrubar a monarquia pós-franquista.

Seremos testemunha do enfrentamento entre as instituições catalãs e estatais espanholas, o posicionamento de lealdades, a disputa entre legalidades, o ajuste de posições… O Estado espanhol não será fácil de ser derrotado e já começa uma perigosa demonstração de força política, judicial e policial. Sabemos que apenas com o voto não alcançaremos a independência. Precisamos de uma grande mobilização disposta desobedecer com o objetivo de desgastar o controle do Estado espanhol sobre o territorio catalão.

Também é um bom momento para abrir novos fronts de conflitos vindo dos nosso bairros (associações de vizinhos, assembleias, grupos pelo direito à moradia) e dos sindicatos, para elaborar políticas de moradia, de “remunicipalização”, de relações trabalhistas, que ajudem a definir uma postura popular do processo constituinte.

Apoiamos e incentivamos o apoio a todas as manifestações a favor do exercício de autodeterminação contra o autoritarismo.

Anarquismo, Catalunha

Sobre a independência da Catalunha, por Federação Anarquista da Catalunha

Federação Anarquista da Catalunha

Os mecanismos para participar nas decisões coletivas deste sistema político impedem um posicionamento decisivo. Deixar que representantes tomem decisões por outros nos levou à frustração atual de nos ver limitados a realizar posicionamentos simbólicos. Os órgãos da grande maioria da administração pública e empresas privadas decidem unilateralmente, e ignoram ou até proíbem o posicionamento ou consultas populares. Podemos mudar este mecanismo de decisão. Podemos nos organizar de forma horizontal e decidir todos os dias coisas que nos afetam diretamente. Necessitamos um interesse unânime para decidir a maneira que queremos nos organizar socialmente, políticamente e no âmbito trabalhista. O nosso envolvimento nas decisões ou lutas trabalhistas, sociais, políticas, ecológicas, etc. nos converte em responsáveis das nossas próprias vidas. São então processos, experiências, transmissões o quê possibilitam que todas entendam a sua responsabilidade para decidir sobre como seria a melhor forma de nos organizar.

Os referendos são uma forma efetiva fazer decisões diretas sobre assuntos concretos. Os movimentos sociais organizaram muitos referendos populares que nunca foram validados pelas administrações. O referendo atual para decidir a continuação ou a independência da Catalunha, está provocando conflitos entre administrações do Estado espanhol. Além disso, está se convertendo em uma estratégia que certos partidos políticos utilizam para produzir mártires de uma causa nobre e apagar ou desculpar a corrupção e medidas impopulares. O descontentamento com a “constituição de 78” (https://pt.wikipedia.org/wiki/Constituição_espanhola_de_1978), o histórico repressivo à cultura catalã e a luta dos movimentos que defendem a autodeterminação é a evidência do conflito que interessa para a gente.

Nós, da Federação Anarquista da Catalunha, manifestamos o nosso suporte ao referendo de 1 de outubro, já que a autodeterminação dos povos formam parte da autogestão e da auto-organização. Mesmo que sejam organizados por uma administração da Catalunha, entendemos que responde a uma necessidade real de interesse de muitas pessoas, além de abrir a possibilidade de um processo destituinte e organizativo não continuista.

Criticamos as margens impostas na participação deste referendo. Fazemos oposição aos limites administrativos da Catalunha; existem aspectos em comum com outras regiões próximas por motivos geográficos ou por relações cotidianas que estão sendo ignorados. Também são excluídas de votar pessoas menores de 18 anos e as que não tenham os seus documentos regularizados.

Em relação a pergunta proposta, acreditamos que a independência (social, trabalhista ou nacional) não depende de um “Estado”, nem das entidades financeiras, nem de nenhuma empresa privada, mas sim uma tomada de decisão que vem de baixo, à margem das instituições administrativas, dos partidos políticos ou dos sindicatos amarelos (https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/s/sindicatos_amarelos.htm), a fim de conseguir o controle do nosso trabalho e da nossa vida. Rejeitamos a criação de um Estado catalão, já que criticamos a ineficácia democrática presente dentro de um “Estado”, seja pela divisão de territórios sem levar em conta realidades locais, ou pelo centralismo, seja de Barcelona ou de Madrid. Também rejeitamos a criação de uma república, apesar das vantagens se comparamos com a situação atual. Entendemos que a república será continuista e inserida no sistema econômico. Se o que se busca com a criação de um novo “Estado republicano” é mais justiça e igualdade, o modelo neoliberal que defende uma parte importante do movimento independentista empurra a Catalunha para uma situação econômica similar a atual. Não queremos isto. Nós não queremos um processo destituinte do poder vigente e um processo coletivo que caminhe para a participação total da população na tomada de decisões para estabelecer forma de organização social e trabalhista, que blindem organizações horizontais e de decisões por assemblearias.

Compreendemos que é difícil entender uma organização social que não esteja blindada por um “Estado republicano”, mas é um desafio que temos que afrontar juntas se queremos ser totalmente livres e independentes. Atualmente encontramos exemplos deste tipo de organização, como municipalismo libertário, as comunas livres ou o confederalismo democrático. Encontramos também na história catalã exemplos de uma organização social emancipadora, como foi o comunismo libertário durante a Revolução Social de 36.

Texto original em catalão https://www.federacioanarquista.org/433-2/

Austeridade, Brasil, Desigualdade / Inequality, Vida

Sobre mim e outras coisas

Minha vida ocorreu desde sempre entre muitas, infinitas idas a médicos. Cheia de exames e remédios, erros e acertos para descobrir “o que eu tinha”. Lá pelos quatro anos descobriram que eu não retinha cálcio, algo meio raro, mas depois de já terem falado coisas muito piores para meus pais, isso deve ter sido um alívio. Desde a adolescência eu achava que eu talvez tinha que fazer medicina, porque eu me sentia de certa forma em débito com os médicos. Mas, no fundo, eu sabia que tinha um problema maior e anterior a isso. Um problema que não era comigo, com meus genes, ou com a minha perna. Os médicos e medicamentos já existiam e a ciência continuaria avançando, mas permanecia no ar um problema gigantesco. O problema estava naquelas outras dezenas, centenas de crianças que coexistiram comigo nos corredores dos hospitais, da AACD, com problemas muito mais graves, e que dependiam de caridade para chegar até o hospital, para ter remédios e para sobreviver. O problema estava naqueles pais que não podiam sequer pagar transporte, muletas, cadeira de rodas, quanto mais dar um presente ou um passeio ao filho que passou por uma bateria de exames, como os meus pais sempre puderam fazer por mim. Foi essa injustiça que habitou minha cabeça desde criança e eu entendi rapidamente que tudo estava terrivelmente errado. Posso dizer que foi por causa da minha perna e da história que ela carrega que eu fui fazer economia. Para lutar contra a distorção absurda que advém da conta bancária, e que nos divide entre quem pode usufruir das descobertas e construções da COLETIVIDADE humana e sobreviver, e aqueles aos quais os médicos, tratamentos, comida, moradia e transporte são simplesmente negados. Não precisei de doutrinação esquerdista porque isso me deu consciência de classe.

Não posso enumerar quantas vezes eu devo ter usado o SUS e quantas dessas crianças que eu conheci sobreviveram graças a ele. Também não posso calcular o quanto de dinheiro meus pais gastaram por causa disso, se somados convênios, consultas particulares, remédios mensais, exames e cirurgias. Só sei que foi o suficiente para que eles decidissem não ter outro filho, pois seria inviável. Atualmente, com menos de 30 anos, por causa da existência dessa única doença, meu convênio custa aproximadamente R$900 por mês, cobrindo bem pouca coisa. Cada vida tem um preço, cada vida tem um valor. Isso por si só já seria o suficiente para me deixar com raiva.Todos os meses quando eu vejo esse valor eu só consigo pensar nas pessoas que carregam essa herança genética e que ganham perto de um salário mínimo. Onde elas estarão? Elas sobreviveram? Penso também o quanto esse convênio estará custando quando eu tiver uns 50 anos e se eu conseguirei um dia pagar isso sem ajuda de outras pessoas. Hoje em dia, um dos remédios eu posso pegar de graça pelo governo (esse ente malvado). Até quando eu terei essa mamata? Planos de saúde são a máfia mais escrota com a qual eu tenho o desprazer de conviver. Fazem lobby diariamente para não pagar sua dívida bilionária com o SUS, e nesse governo ilegítimo estão conseguindo ampliar cada dia mais a sua margem de manobra para não cobrirem coisas e não serem alvo de reclamações na justiça. Não existe capitalismo ético. Lucro é lucro, saúde é saúde, e o objetivo deles é só o primeiro.

Talvez por tudo isso eu fique duplamente nervosa e ofendida quando vejo comentários de “colegas” economistas ortodoxos defendendo austeridade fiscal e essas reformas bizarras como sendo “sinal de responsabilidade” ou alguma merda assim, sem entender o que na prática elas significam. Tem que ser muito alienado ou muito psicopata para tratar pessoas como números, para dizer que um país tem que ter dívida zero e cortar na carne dos mais pobres, ou ainda para achar que seres humanos podem sentar, hibernar e esperar o ajuste mágico da mão invisível, que, aliás, não existe. Primeiro, isso é não entender economia, e infelizmente regredimos tanto que essa visão ortodoxa de hoje seria consensualmente absurda há 50 anos atrás. Segundo, é gostar MUITO de defender gente rica e ser muita massa de manobra teórica para político, empresário e banqueiro. Terceiro, é não ter alma, é não saber nada da pobreza e do que é passar necessidade e não ter como suprir. Gostaria de saber se as pessoas vão poder pegar remédios e fazer exames na casa dos economistas, políticos e empresários que foram a favor da PEC. A insanidade da austeridade está acabando com as farmácias populares já, e vai acabar com o SUS, que é uma conquista histórica do Brasil, reconhecida mundialmente, gostem ou não. Por sua vez, os planos de saúde vão até o limite do que eles puderem usurpar das poucas pessoas que tiverem condições de pagar. No economês, vão maximizar lindamente a sua nova curva de lucro. Pra completar, a Deforma Trabalhista vai acabar com a única possibilidade que muita gente tinha de ter um plano de saúde decente, que era por meio dos acordos dos sindicatos com as empresas, que serão brutalmente enfraquecidos agora.

Então, diante de mais um ataque no senado hoje, eu só queria lembrar mais uma vez que aqueles que ainda defendem essas reformas e a austeridade, defendem a morte. Simples assim. Diante dos nossos olhos a fome está voltando, a desigualdade está aumentando. Todos os dias vejo mais pessoas no quarteirão da minha casa revirando o lixo e voltando ao trabalho informal. Isso não é “uma etapa para arrumar a casa”. Isso é a casa arrumada para as elites, resultado de escolhas políticas autoritárias e oligárquicas. Escolhas respaldadas por uma teoria econômica ultrapassada, que se vale de forma simplista e equivocada do conceito de evolução e de uma noção igualmente equivocada de indivíduo egoísta. O indivíduo necessita da coletividade. Permitir que apenas quem tem mais dinheiro sobreviva não é natural, não é desejável. É uma escolha e é socialmente insana. Não é evolução no sentido biológico, muito menos no sentido moral. A mão invisível e a confiança do empresariado não virão ajustar tudo para o “ponto de equilíbrio” e salvar a todos, sinto muito. Vocês são apenas um grupo de pessoas que não entendem nada da vida, detentores de poder, político e teórico, escolhendo construir o caminho mais rápido para a barbárie e para a extinção da própria espécie.

Brasil, Congresso, Política

De olho no congresso: a venda de terras a estrangeiros

Por Isabela Prado Callegari e Queren Rodrigues

Mestrandas em Economia pela Unicamp

 

No último dia 24, enquanto milhares de pessoas protestavam nas ruas de Brasília e do restante do país, congressistas aproveitaram o desvio das atenções e a ausência de oposição no plenário para aprovar seis medidas provisórias nefastas à população[1]. A primeira foi justamente a de maior interesse do agronegócio, a MP 759, ironicamente nomeada MP da regularização fundiária, mas que promove o inverso disso, premiando a grilagem e a mercantilização de lotes de reforma agrária[2]. Com a mesma celeridade e ainda se aproveitando da crise política, a medida já foi aprovada também pelo Senado nesta semana[3].

Além da MP 759, estão sendo aprovadas a toque de caixa diversas outras medidas que inviabilizam ainda mais a preservação ambiental, a sobrevivência e autodeterminação dos povos tradicionais. Foram já aprovadas as MP 756 e 758 que reduziram unidades de conservação no Pará e em Santa Catarina e estão na ordem do dia medidas para anular recentes demarcações de terras indígenas, quilombolas e reservas florestais, além da flexibilização do licenciamento ambiental e da venda de terras a estrangeiros[4].

O entrevistado Raul Bergold, pesquisador em direito pela PUC PR, informa que existem atualmente dois projetos de lei, tramitando em urgência, para mudar a legislação acerca da venda de terras rurais para estrangeiros, o PL 2.289/2007 e o PL 4.059/2012. Hoje a legislação delimita restrições para a aquisição de terras rurais por pessoas físicas e jurídicas estrangeiras, bem como para empresas brasileiras cujo capital seja majoritariamente estrangeiro. Para adquirir terras que excedam tamanho especificado pela lei, tais pessoas e empresas precisam de autorização do Incra, ou de projeto de exploração aprovado pelo ministério competente e autorização do Congresso Nacional, ou do Conselho de Defesa Nacional, a depender do tamanho e da localização da área a ser comprada ou arrendada. Ambos os projetos prometem acabar com essas exigências, variando pouco entre si.

O interesse do governo Temer nesse assunto é tão explícito que se cogita também a possibilidade de o realizar por meio de Medida Provisória, de autoria de Eliseu Padilha da Casa Civil. Na mesma linha, em fevereiro deste ano, Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, havia dado como certa a liberação da medida até março[5]. Obviamente, as restrições atuais embargam planos de empresas estrangeiras ou de capital estrangeiro para a exploração dos recursos brasileiros, mas os interesses que estão por trás do projeto ainda não são totalmente claros. A bancada ruralista apresentou o projeto como prioritário à Michel Temer ainda enquanto presidente interino e, no entanto, as divergências dentro do próprio congresso e da bancada persistem, por exemplo, com relação à restrição de tamanho, local e atividades das terras a serem liberadas, uma vez que a liberalização poderia representar maior competição para os próprios ruralistas nacionais. Por outro lado, a Casa Civil deixa claro que quer a liberalização irrestrita[6].

Novamente, a JBS pode estar no centro dessas articulações[7]. A empresa já possui mais de 80% das suas operações no exterior, a maioria nos Estados Unidos, e vez que está na mira de diversas investigações seguidas desde o ano passado, com seus lucros caindo substancialmente[8], a empresa já planejava desde dezembro uma abertura de capital na bolsa de Nova York, para aumentar sua capacidade de financiamento[9]. A abertura foi adiada até o presente momento devido ao novo escândalo, aguardando uma melhora nas avaliações de suas ações. Fato é que após as mudanças promovidas pelo atual governo com relação à taxa de juros de longo prazo do BNDES[10], visando equipará-la às taxas de bancos privados brasileiros, bem como com após a descoberta do possível favorecimento ilícito que a JBS obteve nos financiamentos, essa fonte de financiamento primordial estaria perdida daqui para frente. Esse fator aliado à crise nacional que se arrasta impulsiona a empresa a buscar cada vez mais financiamento no mercado de capitais externo, podendo se tornar uma empresa brasileira de capital estrangeiro.

Ademais, os acontecimentos recentes na política nacional mostram a relação íntima entre os donos e diretores da JBS e os ministros da Casa Civil, Eliseu Padilha, e da Fazenda, Henrique Meirelles. O primeiro possui fazendas inteiras dentro de áreas irregulares, exercendo pecuária sem licença para tal, e documentos comprovam a venda de centenas de cabeças de gado do ministro para a JBS, provavelmente advindas dessas áreas. Os áudios entre o diretor de relações internacionais da empresa, Ricardo Saud, e o deputado Rodrigo Loures (PMDB) revelam ainda os esforços empenhados em blindar o ministro[11]. Henrique Meirelles, por sua vez, era presidente da holding J&F logo antes de assumir como ministro, mas não é mencionado em nenhuma das delações, o que é convenientemente estranho. Da mesma forma, as conversas de Joesley Batista com Michel Temer deixam clara a facilidade de interlocução da JBS com o ministro e, no entanto, não existem encontros oficiais registrados sua agenda pública[12]. Sabe-se ainda que a JBS financiou em 2014 com altas quantias quase 2 mil políticos, candidatos a todos os cargos, executivos e legislativos, por meios lícitos e ilícitos, o que coloca praticamente o congresso inteiro e o governo trabalhando a seu favor[13].

Com relação ao projeto em questão, além dos perigos à soberania nacional, a liberalização das terras ao capital reflete principalmente um problema mundial crescente, denominado land grabbing, no qual o estresse hídrico, climático, energético e alimentar aumenta a privatização de terras e de recursos em larga escala, colocando também em perigo a soberania com relação a esses outros fatores[14]. O Incra ressalta ainda que a liberação tende a causar uma explosão no preço das terras, inviabilizando ainda mais as desapropriações para fins de reforma agrária[15]. É claro que os favorecimentos ocorridos por meio do BNDES e a chamada política de campeões nacionais são passíveis de inúmeras críticas, que ficam explícitas no caso da JBS. No entanto, o Estado continua sendo mecanismo imprescindível para a soberania e o controle dos recursos, sendo condição necessária, embora não suficiente. A questão é reivindicar a democracia de alta intensidade, na qual o Estado deve estar a favor dos cidadãos e não aliado às grandes empresas. Por outro lado, a desregulamentação e a liberalização ao capital estrangeiro novamente e cada vez mais colocam nosso território e recursos a serviço da especulação, piorando um cenário que já é caótico, e regredindo qualquer possibilidade de desenvolvimento real. Nos resta ficar atentos às movimentações com relação a esse projeto e aos interesses que o impulsionam.

[1] http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-05/sem-oposicao-em-plenario-camara-aprova-seis-mps

[2] http://www.redebrasilatual.com.br/ambiente/2017/05/ativistas-alertam-medida-provisoria-759-vai-privatizar-terras-publicas-e-acabar-com-reforma-agraria

[3] http://justificando.cartacapital.com.br/2017/06/01/senado-aprova-mp-com-novas-regras-para-regularizacao-fundiaria/

[4] http://www.bbc.com/portuguese/brasil-40089000

[5] http://www.valor.com.br/brasil/4871646/meirelles-diz-que-venda-de-terra-estrangeiros-comeca-em-30-dias

[6] http://www.valor.com.br/agro/4928916/casa-civil-quer-venda-de-terra-estrangeiro-sem-limite-de-area

[7] https://www.cartacapital.com.br/politica/a-jbs-e-a-venda-de-terras-a-estrangeiros

[8] http://www.conjur.com.br/2017-mai-19/limite-penal-entenda-golpe-mestre-joesley-jbs-via-teoria-jogos

[9] http://www.valor.com.br/politica/4972876/analise-joesley-rifou-brasil-para-garantir-migracao-da-jbs-aos-eua

[10] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-03/governo-vai-criar-nova-taxa-para-emprestimos-do-bndes

[11] http://outraspalavras.net/deolhonosruralistas/2017/06/05/documentos-mostram-que-eliseu-padilha-vendeu-gado-ilegal-jbs/

[12] https://theintercept.com/2017/05/26/a-conveniente-ausencia-de-henrique-meirelles-na-delacao-da-jbs/

[13] http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/quem-sao-os-quase-2-mil-candidatos-que-a-jbs-diz-ter-financiado/?utm_source=Congresso+em+Foco&utm_campaign=e9f1a2a156-EMAIL_CAMPAIGN_2017_05_30&utm_medium=email&utm_term=0_96c738fd51-e9f1a2a156-171789257

[14] http://brasildebate.com.br/sobre-a-liberacao-da-venda-de-terras-para-estrangeiros-no-brasil/

[15] https://www.brasildefato.com.br/2017/02/20/governo-temer-diverge-sobre-projeto-de-venda-de-terras-a-estrangeiros/

Brasil, Congresso, Política

Xadrez para os pobres, xeque-mate para os ricos

(Texto publicado na Carta Capital)

Há exatamente um mês antes da exposição midiática da Operação Carne Fraca, o atual Ministro da Fazenda e nome favorito do mercado para ocupar a presidência, Henrique Meirelles, enfatizou em entrevista para a Globonews a urgência da aprovação da venda de terras rurais para estrangeiros. A fala do ministro foi clara: “Vamos liberar nos próximos 30 dias”[1]. Diversos ativistas se opuseram fortemente à medida, por uma questão de soberania nacional e alimentar, e pelo mínimo direito à autodeterminação. Afinal, se a vegetação nativa e o ambiente natural já são cotidianamente extorquidos pelos ruralistas nacionais, visando a exportação de soja e gado, o que seria então com a entrada de estrangeiros, somada à diminuição dos parques nacionais, à precarização do licenciamento ambiental, à MP da regularização fundiária e ao retrocesso nas demarcações de terras indígenas? No entanto, nós, ativistas e público em geral, ainda não tínhamos todas as informações sobre as peças em jogo, de modo que as motivações desse projeto não eram totalmente claras.

Parecia contraditório que a liberação de terras rurais para empresas estrangeiras estivesse sendo feita a toque de caixa, a despeito da maior competição que traria para os ruralistas nacionais. Foi, por exemplo, o que declarou Blairo Maggi, o rei da soja, que solicitou restrições para a plantação de soja e milho[2].  O projeto em questão, PL 2289, é de 2007[3], mas está travado na câmara desde então, sendo alvo de sucessivos arquivamentos e desarquivamentos, e tendo outros projetos anexados, o que denota os interesses poderosos e contraditórios que esse tema suscita. Em outubro do ano passado, no entanto, com Temer já presidente e Meirelles ministro, o projeto retornou com força aos noticiários, com texto preparado pela Casa Civil, e relatoria do deputado Newton Cardoso Jr. (PMDB/MG)[4]. Apesar do repentino ressurgimento da proposta, parece que as divergências colocadas pelos ruralistas nacionais, mesmo sem conseguirem impor restrições ao projeto, conseguiram atrasar sua aprovação até o presente momento[5].

Porém após a Operação Carne Fraca e as delações da JBS para a Lava-Jato, novas informações valiosas se somam ao contexto anterior. Como já é de conhecimento público agora, os irmãos Batista não apenas ganharam bilhões de dólares com a informação privilegiada do escândalo que eles mesmos criaram, como fizeram de antemão um acordo no assombroso mercado das delações premiadas, no qual em vez de serem presos, eles somente pagariam uma multa, que é quase um presente, R$250 milhões[6]. É claro que os irmãos sabiam que para obter tamanho benefício, eles precisariam implicar alguém de peso nas suas delações, de forma que arquitetaram junto à justiça as provas que seriam produzidas: gravações, malas com chip e dinheiro rastreado. Acontece que não apenas os Batista se acertaram previamente com a justiça daqui, como também com o departamento de justiça dos Estados Unidos[7], e em dezembro do ano passado já haviam aprovado a realização de oferta pública da empresa na Bolsa de Nova York, o que faz parte do plano de migração do grupo para fora do Brasil. Esse processo de reorganização da empresa levará o grupo a deixar de ser brasileiro, com capital majoritariamente estrangeiro, se enquadrando justamente no caso das empresas impedidas de comprarem terras rurais no país, de acordo com parecer da Advocacia Geral da União, de 2010. Ou seja, o gran finale dos irmãos Batista não será possível sem a aprovação do projeto de venda de terras para empresas estrangeiras. Tendo em vista as quantias notáveis que a JBS investe em doações de campanha para praticamente todos os parlamentares[8], tudo leva a crer que esse é o grande interesse por trás desse projeto dúbio, e não apenas mais uma medida liberal de abertura do país ao capital estrangeiro.

Se já causava estranheza o fato de Eliseu Padilha, na Casa Civil, e Meirelles, na Fazenda, estarem advogando tão ativamente em prol desse projeto, soma-se a essa estranheza o fato de que Meirelles era o presidente da holding J&F até 2016, cargo no qual ganhava R$3 milhões por mês, e que abdicou para ganhar R$30 mil como ministro. Ele não sabia de nada durante o seu período como presidente do conglomerado? Nada está sendo investigado a esse respeito? O fato de Temer estar sendo abandonado pelos seus apoiadores na mídia diz tão somente que existe alguém muito mais preparado para aprovar os interesses do mercado do que ele. Enquanto Temer parece já ser carta fora do baralho, uma eleição indireta de Meirelles é o cenário que vem se concretizando, o que representaria a instauração do capital, sem intermediários políticos, e a continuidade das reformas. O ministro seria a opção perfeita para os interesses escusos, e ainda se enquadraria na categoria em ascensão no capitalismo tardio, a de “não político”. Em menos de uma semana a mídia venderia facilmente à população a imagem que ele possui entre os comentaristas econômicos ortodoxos, de gestor, homem forte do mercado, responsável, experiente, dentre tantos outros adjetivos desonestos. Estejamos atentos e em luta contra as reformas e pelas eleições diretas.

 

[1] http://www.valor.com.br/brasil/4871646/meirelles-diz-que-venda-de-terra-estrangeiros-comeca-em-30-dias

[2] http://www.correiodoestado.com.br/rural/terra-a-estrangeiros-blairo-maggi-quer-restricoes-para-soja-e-milho/298293/

[3] http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=373948&ord=1

[4] http://pmdbmg.org.br/newton-cardoso-jr-e-indicado-relator-do-projeto-que-regula-a-compra-de-terras-por-estrangeiros/

[5] http://www.istoedinheiro.com.br/projeto-de-venda-de-terras-a-investidores-estrangeiros-fica-mais-liberal/

[6] http://economia.estadao.com.br/blogs/coluna-do-broad/ganho-da-jbs-com-compra-de-dolares-e-mais-que-suficiente-para-pagar-multa/

[7] http://www.valor.com.br/politica/4972876/analise-joesley-rifou-brasil-para-garantir-migracao-da-jbs-aos-eua

[8] https://www.cartacapital.com.br/politica/um-golpe-por-dia

Brasil, Congresso, Política, Reforma Trabalhista

As reformas, os direitos e a economia: o que sobrará depois?

(Texto publicado em Le Monde Diplomatique Brasil)

Por Isabela Prado Callegari, Queren Rodrigues e Beatriz Passarelli Gomes

Mestrandas em Economia pela Unicamp

A despeito dos acontecimentos recentes implicando a presidência, as reformas e medidas econômicas ainda seguem vivas e a elas que devemos atentar, independente do que venha a acontecer no Executivo daqui pra frente. Carmen Lúcia, presidente do Supremo, que eventualmente pode assumir o país, já vinha se reunindo com grandes empresários nas últimas semanas[1], e Henrique Meirelles, principal articulador da política econômica com os bancos, já afirmou que seguirá a mesma linha com ou sem Temer na presidência[2]. As medidas que seguem sendo impostas são rejeitadas pela ampla maioria da sociedade e derivam do acordo explícito entre um Executivo ilegítimo, um Legislativo não representativo[3] e confederações patronais[4]. Medidas como PEC do Teto[5], Reforma do Ensino Médio[6], Reformas Previdenciária[7] e Trabalhista[8], MP da Regularização Fundiária[9], desmonte do BNDES[10], aparelhamento e sucateamento da Funai[11], precarização do licenciamento ambiental[12], cerceamento dos direitos indígenas e sua criminalização[13], têm a característica comum de não serem medidas conjunturais, mas de modificarem o pacto constitucional firmado em 1988[14], e a possibilidade de atuação do Estado, com impactos estruturais, de curto, médio e longo prazo. O fato de medidas estruturais tão profundas estarem sendo implementadas de forma impositiva e sem diálogo nenhum já seria razão suficiente para invalidá-las no que concerne uma democracia. No entanto, analisaremos aqui algumas das falácias e dos possíveis desdobramentos econômicos e sociais do cenário que vem se desenhando.

Economistas ortodoxos aplaudem as medidas do governo e nunca se furtam em repetir o argumento irremediavelmente arrogante de que os defensores da regulação governamental possuem propósitos nobres de proteção e preocupação com o trabalhador, mas que infelizmente, propósitos bem-intencionados servem apenas para minar a autorregulação do mercado, resultando em um cenário pior para os próprios trabalhadores. Propõem que não tratemos o trabalhador como “coitadinho”, pois a livre negociação será benéfica para todos. Dizem que o patrão e trabalhador não devem ser vistos como antagônicos, pois estão do mesmo lado, e que as leis atuais protegem apenas a parcela da população que está formalizada e cria incentivos para a informalidade. Dizem ainda que a reforma trabalhista aumentará a produtividade do país. Quanto a esses argumentos, é necessário fazer alguns comentários.

1) Os defensores das propostas dizem da datação da CLT, mas não mencionam que 923 dos seus artigos iniciais já foram alterados e que a reforma em questão regride a legislação ao que ela era antes de 1943[15]. 2) Diversas propostas atuais apenas criam um cenário no qual a lei é totalmente favorável ao empregador, como o aumento da jornada de trabalho, relativização do que é insalubridade e trabalho escravo. Desse modo, a retórica “menos Estado, mais mercado” não passa de uma frase de impacto, que na verdade significa o mesmo Estado, servindo menos a um lado e mais a outro. 3) Todas as medidas beneficiam no texto da lei os empregadores, mas, curiosamente, seria só por um mecanismo mais complexo e etéreo de ajuste de mercado que elas beneficiariam também o trabalhador. 4) Todas as medidas transferem o risco do patrão para o trabalhador, como, por exemplo, flexibilização da jornada, onde o empregador define os horários e o salário a posteriori e o empregado tem que adequar sua rotina e sua renda[16]. De acordo com a própria teoria ortodoxa, na qual o lucro do empresário é uma recompensa pelo seu risco, seria então esperado que os lucros caíssem consideravelmente daqui pra frente. 5) Se trabalhador e patrão estão “do mesmo lado”, então por que o que beneficia o trabalhador é sempre ruim para todos, mas o que beneficia o patrão é sempre bom para todos? 6) Se a reforma acaba com qualquer tipo de proteção que existe atualmente[17], qual é a vantagem de um informalizado se formalizar sob as novas regras? Por outro lado, os trabalhadores formais, que representavam um contingente crescente nos últimos 10 anos[18], terão seus direitos extorquidos. 7) É irônico que zelar pelo respeito mínimo às condições de vida seja coitadismo, enquanto tratar os trabalhadores como ignorantes econômicos, que não enxergam as benesses da reforma e necessitam de economistas, que exerçam a tutela do incapaz sobre eles, seja entendido como dignificante. 8) É curioso que os defensores de tais medidas acreditem que elas são fruto de planos econômicos refinados e não de um deprimente balcão de negócios, no qual o trabalhador não está presente. Basta ver que a reforma trabalhista se iniciou com uma proposta de 9 páginas (apresentada às pressas, logo após a menção de Temer na Lava Jato), e no período de dois meses se transformou em um desmonte amplo da CLT com 132 páginas[19], escritas por parlamentares tão ou mais ignorantes em economia do que qualquer outro cidadão, mas que, no entanto, padecem de conflitos de interesse explícitos. 9) Por fim, é totalmente absurda a afirmação de que a reforma trabalhista aumentará a produtividade. Se a produtividade é o valor produzido por hora, é muito mais provável que o valor produzido por hora diminua, uma vez que os trabalhadores certamente estarão mais exauridos. O que irá acontecer é o aumento do lucro por hora e o aumento das horas trabalhadas. Isso não significa que o país estará produzindo valor agregado de forma mais eficiente, significa apenas que os trabalhadores estarão mais explorados, produzindo mais lucro, que pode ser apenas retido e não reinvestido.

Feitas essas considerações, sabemos que a tese central dos defensores das reformas é de que tudo isso irá beneficiar o “ambiente de negócios”, trazer “segurança jurídica”, “solvência”, “aumentar a confiança” e aumentar o crescimento. Esse é o mecanismo pelo qual os trabalhadores seriam finalmente beneficiados, ainda que tenham perdido seu direito à mínima dignidade. O governo se ancora nessa base teórica e se orgulha em não se importar com a popularidade abissal, pela suposta coragem de dar o remédio amargo e necessário à população[20]. Realmente, tirar todo o risco do capital e diminuir o custo do trabalho faz com que o patrão tenha incentivos para expandir a produção. No entanto, o desejo do empresário é o único fator determinante em uma economia? Se estamos em um sistema capitalista, mesmo que você seja a favor do capitalista, o sistema não deixa de existir. E um sistema, por definição, é um mecanismo onde as partes são interdependentes. Assim, os incentivos somente a um lado são suficientes para realizar a produção e vendê-la? Para quem seria vendido um aumento da produção, se 97% da população ativa que não é empregadora estiver com seu salário diminuído e maior instabilidade financeira? Expandir para o mercado externo, por sua vez, depende apenas do custo do trabalho e não do câmbio? Por outro lado, a contratação de mão de obra por empresas estrangeiras que se instalarem aqui irá compensar a quebra de outras empresas que não suportarem a competição? Além disso, com supressão de intervalos e férias, trabalho intermitente infinito, aumento da jornada e horas extras não remuneradas, é muito mais plausível que o empregador diminua a mão de obra contratada, aumente as horas e a contratação de terceirizados com salários mais baixos.

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Todas essas questões não têm resposta única, enquanto a única certeza é a precarização do trabalho e perda de direitos adquiridos. Além de todas as possibilidades que ficam no ar, frente às afirmações simplistas neoliberais, é preciso entender que nunca existe apenas uma resposta possível a uma crise e nem uma fórmula pronta para realizar qualquer política econômica. Na verdade, existem sempre diversas combinações e escolhas possíveis, que irão variar de acordo com os valores que escolhemos privilegiar enquanto sociedade, acarretando em mais ou menos injustiça social, degradação ambiental, concentração de renda etc. Para citar três exemplos: 1) a tão falada “responsabilidade fiscal” poderia ser adotada por meio de reforma tributária progressiva, diminuindo impostos sobre consumo, taxando mais os ricos e restabelecendo o imposto sobre lucros e dividendos, no entanto preferiu-se fazer uma PEC, que congela gastos sociais, já exíguos, frente a uma população crescente, pobre e dependente de programas assistenciais, como farmácia popular, para sobreviver[21]. A isso o governo chama de “cortar na carne”. 2) A sustentabilidade da previdência poderia ser atingida acabando com as desvinculações de receita da união, com a revisão de aposentadorias desproporcionalmente onerosas como a dos militares, com a extinção de isenções que o agronegócio usufrui desde 1990, e com o aumento do controle sobre a sonegação. Ao invés disso, prefere-se renovar sucessivos pacotes de refinanciamento que dificultam a cobrança de dívidas bilionárias, manter aposentadorias privilegiadas, e inserir novas injustiças, como aumento da idade mínima, exigência de contribuição para a aposentadoria rural, e redução das pensões por morte e invalidez. Ao mesmo tempo em que a reforma trabalhista esvazia a arrecadação ao INSS de uma hora para outra, auto-realizando a sua alardeada “quebra”, e satisfazendo os donos de previdências privadas. 3) Quanto à produtividade, é crescente o número de estudos que apontam para a complexidade produtiva, alcançada por meio da indústria, como o fator primordial para o aumento da produtividade[22]. No entanto, o governo, seguindo a política ortodoxa, é explicitamente favorável ao câmbio valorizado, que está altamente correlacionado à desindustrialização à expansão do agronegócio[23]. Além disso, incentivam ainda mais o agronegócio, e a baixa produtividade, por meio diversas outras medidas, que são também uma sentença para o meio ambiente e os povos tradicionais, como facilitação de venda de terras para estrangeiros, facilitação de regularização das terras griladas, diminuição dos parques nacionais e restrição às demarcações de terras indígenas, para a expansão da fronteira agrícola. De quebra, a reforma do Ensino Médio ainda diminui a qualificação da população economicamente ativa (da parcela já empobrecida).

Fica claro que as escolhas feitas pelo atual governo, com requintes de crueldade na maioria das vezes, e a despeito da opinião popular, dizem muito mais sobre valores implícitos e a quem o governo pretende agradar, do que qualquer coisa sobre expertise econômica e enfrentamento da crise. Obviamente, o governo precisava aproveitar a crise para empurrar o pacote de maldades à população e eventualmente dizer, com a ajuda da grande mídia, que a economia se recuperou por causa de tais reformas, e que elas eram inevitáveis. Depois das reformas já feitas, qualquer argumento contrário será contrafactual, ou seja, versará sobre algo que poderia ter sido e não foi. A visão do governo será então a história como ela é, e a eventual recuperação econômica terá se dado por causa das reformas, e não apesar delas. Cedo ou tarde, a economia voltará a crescer, tanto porque ela é reflexo conjuntural de uma crise internacional, como porque as economias capitalistas tendem a movimentos cíclicos. A esse ponto, qualquer estímulo anti-cíclico terá o efeito desejado de crescimento, e uma resposta anticíclica é de interesse também do governo, não só pela possível candidatura de alguém da sua base, se houverem eleições, mas também e principalmente, porque o golpe tem que se pagar para além da perda de direitos. Seria ingenuidade pensarmos que o governo deixaria a crise seguir se aprofundando, afetando o lucro dos empresários que o apoiam. Vários motivos levam a crer que a crise econômica foi utilizada para inflamar a instabilidade política, que por sua vez, serve para viabilizar o acordo classista acima mencionado, que exclui os trabalhadores.

Um breve preâmbulo sobre a situação dos estados nos fornece ainda mais evidências nesse sentido. Há meses, os estados governados pelo PMDB, notadamente, RJ e RS, vêm sofrendo privatizações[24], extinção de fundações públicas[25], e parcelamento ou não pagamento de milhares de seus servidores, pensionistas e aposentados[26], supostamente por falta de dinheiro e necessidade de renegociação da dívida com a União. No entanto, outros gastos, como consultorias, cargos comissionados e salários dos próprios governadores e parlamentares, continuam em dia e até mesmo recebendo aumentos[27][28][29]. Ao mesmo tempo, o estado de Minas Gerais, também em calamidade financeira mas não governado pelo PMDB, não aceitou as imposições do governo federal e contestou a dívida, resultando em ganho de causa no STF para o estado, invertendo a situação, e colocando a União como credora[30]. Tais fatos denotam como a crise e a dívida podem ser usadas politicamente de forma orquestrada para privatizações e justificativa para as reformas. Assim, acreditamos que o Executivo, tanto a nível federal como nos estados pertencentes à base, e em aliança com as Confederações, está cultivando a sensação generalizada de terra arrasada, para aprovar as medidas, e aguardando o momento preciso para fazer uso de alguns elementos chave, impulsionando a economia e, ao mesmo tempo, celebrando o suposto sucesso das reformas. Tais elementos seriam: (i) a liberação em dia do pagamento dos servidores, pensionistas e aposentados nos estados; (ii) a implementação do pacote de investimentos anunciado por Michel Temer[31]; (iii) o “retorno da confiança” alardeado pelas agências de rating, economistas e mídia, que já começa a acontecer, mesmo com base em crescimento ilusório, que deriva de uma mudança metodológica do IBGE[32]; (iv) a consequente retomada de contratações e de utilização da capacidade ociosa das empresas, por expectativas auto-realizáveis e por coordenação com o grande empresariado; (v) a taxa de juros, que vem sendo baixada, também pela coordenação de Meirelles com o grande capital, que investe nas reformas como benéficas para o maior acúmulo financeiro, independente do efeito social delas; e (vi) a série de privatizações ocorrida, que criará uma ilusão imediata nas contas públicas, decorrente da venda de patrimônio.

Assim, tentamos aqui contrapor algumas das diversas falácias que surgem em meio aos argumentos simplistas e desonestos de defesa das reformas. Buscamos também evidenciar que o impacto de longo prazo, tanto na estrutura produtiva brasileira, como na construção da cidadania e equidade, é trágico. A despeito de tudo isso, temos ouvido os analistas de mercado e da grande mídia satisfeitos e otimistas, pois para esses atores não importa o longo prazo, muito menos os direitos sociais, e o seu otimismo costuma ser auto-realizável. Daqui para frente, caso as reformas passem, é necessário ainda lembrar que níveis de emprego futuros não serão comparáveis aos que temos hoje, pois os trabalhadores estarão formalmente empregados sem ter um salário certo ao fim do mês. A inflação também tende a cair pelo populismo da apreciação cambial, no entanto, se os salários caírem, o real poder de compra da população poderá cair, a despeito da queda da tão temida inflação. Desse modo, as reformas mudam os indicadores e criam ilusões que poderão ser vendidas como melhorias, enquanto a população é cada vez mais explorada, empobrecida e desprovida de bens e serviços públicos. Cabe a nós não permitirmos tamanhas ofensivas sem oferecer nossa mais profunda resistência.

[1] http://www.poder360.com.br/lava-jato/carmen-lucia-stf-tem-encontro-reservado-com-seleto-grupo-de-empresarios/

[2] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/05/1885439-meirelles-diz-que-fica-mesmo-se-temer-sair-e-reafirma-seguir-com-reformas.shtml?cmpid=fb-uolnot

[3] http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/101/no-congresso-nacional-retrato-desfocado-da-sociedade-brasileira-2775.html

[4] http://outraspalavras.net/brasil/homens-primatas-capitalismo-selvagem/

[5] https://www.cartacapital.com.br/economia/entenda-o-que-esta-em-jogo-com-a-aprovacao-da-pec-55

[6] http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/101/no-congresso-nacional-retrato-desfocado-da-sociedade-brasileira-2775.html

[7] http://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2017/03/para-economista-reforma-da-previdencia-e-draconiana-excludente-e-mentirosa

[8] http://www.jorgesoutomaior.com/blog/os-201-ataques-da-reforma-aos-trabalhadores

[9] http://revistagloborural.globo.com/Noticias/noticia/2017/04/mpf-considera-inconstitucional-mp-que-altera-regularizacao-fundiaria.html

[10] https://www.pressreader.com/brazil/valor-econ%C3%B4mico/20170406/281762744108787

[11] http://extra.globo.com/noticias/brasil/general-do-exercito-nomeado-presidente-da-funai-21314190.html

[12] http://www.conjur.com.br/2017-mai-02/pl-licenciamento-ambiental-propostas-devastadoras

[13] https://www.brasildefato.com.br/2016/10/24/retrocesso-e-criminalizacao-diagnosticos-de-ameacas-aos-direitos-dos-povos-indigenas/

[14] https://theintercept.com/2017/05/12/um-ano-de-temer-em-10-ataques-a-constituicao/

[15] http://www.jorgesoutomaior.com/blog/pl-678716-sobre-um-parecer-de-leigos-para-ignorantes-ou-de-ignorantes-para-leigos

[16] http://brasildebate.com.br/flexibilizacao-da-jornada-a-quem-interessa/

[17] http://www.jorgesoutomaior.com/blog/os-201-ataques-da-reforma-aos-trabalhadores

[18] http://www.valor.com.br/brasil/3357378/empregos-formais-no-pais-crescem-657-em-dez-anos-indica-ibge

[19] http://www.jorgesoutomaior.com/blog/a-quem-interessa-essa-reforma-trabalhista

[20] http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,a-imprensa-argentina-temer-diz-que-covardia-travou-reformas-e-nao-se-importa-com-popularidade,10000079585

[21] http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2017/04/farmacias-populares-serao-fechadas-pelo-governo.html

[22] http://www.paulogala.com.br/baixa-produtividade-no-brasil-sistema-ou-individuo/

[23] http://www.paulogala.com.br/apreciacao-cambial-e-queda-da-poupanca-agregada-no-brasil/

[24] http://www.correiodopovo.com.br/Noticias/Politica/Assembleia%20Legislativa/2017/02/609995/Lider-de-Sartori-admite-novas-privatizacoes-no-RS

[25] http://www.sul21.com.br/jornal/extincao-de-fundacoes-e-grave-erro-diz-coordenador-do-plano-de-governo-de-sartori/

[26] https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/sem-salario-aposentados-pensionistas-do-estado-relatam-dificuldades-financeiras-21189306.html

[27] http://www1.folha.uol.com.br/poder/2015/01/1576048-com-crise-financeira-governador-do-rs-aprova-aumento-do-proprio-salario.shtml

[28] http://esquerdadiario.com.br/Em-meio-a-crise-governo-do-RS-aumenta-gastos-com-diarias-e-passagens-aereas

[29] https://extra.globo.com/emprego/servidor-publico/apesar-de-indicativo-de-cortes-numero-de-comissionados-do-estado-do-rio-cresceu-em-junho-19631821.html

[30] http://www.valor.com.br/brasil/4824254/pimentel-decisao-do-stf-sobre-lei-kandir-torna-mg-credor-da-uniao

[31] http://www.valor.com.br/brasil/4963268/temer-lanca-avancar-para-investir-r-59-bi

[32] http://brasildebate.com.br/fim-da-recessao-ou-ilusao-estatistica/#.WRr_Ty6lW7I.whatsapp

Brasil, Congresso, Desigualdade / Inequality, Economia, Reforma Trabalhista

Homens Primatas, Capitalismo Selvagem

(Publicado em Outras Palavras)

Na sexta-feira dia 28 o país passou pela sua maior greve em 30 anos, a primeira greve geral contra as reformas trabalhista e previdenciária[1]. Em consulta popular feita pelo Senado, mais de 95% dos votantes se mostraram contra a reforma trabalhista[2], bem como 80% reprovam a lei da terceirização plena, 93% são contra o aumento da idade para aposentadoria, e a popularidade de Michel Temer beira os 5%[3]. Não é de se espantar tamanha rejeição, uma vez que as propostas recentes têm sido tão abjetas, que parece que os capitalistas brasileiros esqueceram que a sobrevivência do próprio capitalismo depende dos trabalhadores. No entanto, aqueles que insistem em defender as reformas se valem de alguns espantalhos da legislação, de antigas falácias e do discurso de terra arrasada para justificar uma retirada absurda de direitos, cujo único objetivo real é exacerbar a concentração de riqueza no topo da pirâmide. Para alguns economistas, a opinião da população deve ser desconsiderada, sob a alegação de que ela não tem a expertise necessária para entender as reformas. Isto é, os 96,3%[4] das pessoas ocupadas, que não são empresárias, e que terão seus direitos subtraídos e sua vida profundamente alterada, têm sua voz e sua luta ridicularizadas a priori.

Por outro lado, a grande maioria dos economistas famosos, defensores das reformas, nunca teve que se preocupar com coisas menores, como subsistência, e geralmente detém participações e investimentos milionários em empresas e fundos, cujo conflito de interesses deveria colocar sempre sob suspeita suas opiniões. No entanto, tais economistas têm espaços garantidos na grande mídia para desfilarem seu douto conhecimento isento em prol da retirada de direitos alheios. Foi o que fez essa semana, para o Globo, o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco[5], em artigo que termina com uma pérola ditatorial: “nenhuma boquinha terminou no Brasil sem certa dose de esperneio e gás lacrimogêneo. A sexta-feira que passou foi dedicada a isso. Vida que segue”. Apesar de ter sido bastante visceral em sua fala, os economistas ortodoxos, como Franco, em geral são mais afeitos à impessoalidade calculista e à representação matemática da realidade, por poderem usar números que melhor lhes convêm, permanecendo sob o véu da isenção matemática. Assim, gostaria de expor aqui alguns números.

Enquanto Franco nos lembra que a Justiça do Trabalho teve um custo de R$9,1 bilhões em 2015, gostaria de lembrar que a mesma Justiça do Trabalho viabilizou aos trabalhadores o pagamento de mais de R$33 bilhões de reais no biênio 2014/2015 em créditos trabalhistas[6]. Não houvesse Justiça do Trabalho, os mesmos R$33 bilhões permaneceriam sendo lucro do empregador e os trabalhadores jamais veriam esse dinheiro. A mesma Justiça do Trabalho também resgatou R$5 bilhões de reais para os cofres públicos no mesmo biênio, a título de custas e contribuições previdenciárias, cuja sonegação recorrente de grandes empresas é um dos motivos do alegado rombo da previdência. É óbvio que a Justiça do Trabalho, como todo o Judiciário é oneroso em seus altos escalões e ninguém está dizendo que isso não deva ser discutido. Acontece que isso não é nem um arremedo de argumento para justificar a extinção do papel da Justiça do Trabalho, muito menos em um país que tem por ano, aproximadamente, 700 mil acidentes de trabalho (subnotificados)[7], que nos últimos 20 anos resgatou mais de 50 mil pessoas em condições análogas à escravidão[8] e cujas empresas acumulam R$426 bilhões somente em dívidas previdenciárias[9].

 

Mito da flexibilização, modernização e aumento de empregos

É imperativo desmistificar a ideia tão alardeada de que os empregadores demandariam mais trabalhadores por não estarem pagando direitos trabalhistas. Na verdade, o processo não parte da diminuição de custos para chegar ao aumento da produção, e sim o inverso. O empregador precisa de empregados para produzir e responder à determinada demanda, e ele vai se esforçar para pagar o mínimo àqueles empregados, dentro das regras do jogo, ou ainda pagando alguns deputados para mudarem as regras do jogo. Por acaso temos atualmente uma taxa de desemprego sistematicamente maior ou uma produção sistematicamente menor por termos leis mais humanas do que na época da escravidão? É absurdo que tenhamos que fazer esse exercício retórico, mas parece que algumas pessoas estão acreditando nesse argumento surreal. É óbvio que trabalhadores são demandados de acordo com a necessidade da produção, sendo que a não existência de direitos trabalhistas garante inclusive que o empregador tenha uma margem de manobra maior para aumentar as horas dos trabalhadores já contratados, sem pagar a mais por isso, antes de pensar em contratar mais gente.

O fato da mão-de-obra se tornar mais baratos para o patrão não vai gerar mais empregos por pelo menos três motivos lógicos, que se respaldam em diversas evidências históricas: 1) Por que seriam demandados mais trabalhadores a um custo menor se não houvesse para quem vender o aumento de produção? 2) Se os trabalhadores tiverem seus salários diminuídos, e uma rotatividade e insegurança maior em seus empregos, eles diminuirão seu consumo, aumentarão o endividamento e a inadimplência. Isso afeta a demanda, que depende da demanda externa, mas principalmente da demanda dos próprios trabalhadores. 3) A única possibilidade minimamente positiva seria se a falta de leis acarretasse diminuição de preços, por menores custos. No entanto, novamente, os trabalhadores teriam seu salário diminuído, então se os preços diminuírem, na verdade, o salário real da população só se manteve igual, não acarretando aumento de demanda e precarizando as suas condições iniciais. Ou seja, de imediato, as certezas que se colocam com essa reforma estrutural são: (i) a precarização, instabilidade e destruição de direitos por um longo prazo, (ii) o aumento de horas trabalhadas e de condições degradantes, (iii) o aumento de lucro de 3% da população economicamente ativa, que é empregadora; e (iv) deixa como opção a diminuição de salário real ou, na melhor das hipóteses, a estabilidade do salário real.

Outra falácia comum da ortodoxia é de que a maior flexibilidade, como a implementação do contrato de zero horas (no qual o trabalhador é permanentemente contratado como temporário, sem horas definidas), facilitaria o ajuste ao aumento ou diminuição da produção. Sim, o sonho de todo o empregador é poder mandar um whatsapp para o empregado e ele se materializar com sua força de trabalho a postos. Ninguém considera nesse cenário a instabilidade brutal a que estarão sujeitos os mais pobres, já precarizados, e a total devoção que os trabalhadores terão de ter daqui para frente para atender aos diversos chamados dessincronizados dos seus múltiplos empregos. Ou melhor, isso foi sim considerado. Para não prejudicar os patrões, o empregado poderá pagar multa caso não consiga comparecer ao trabalho, seja por qual motivo for. Realmente, a confiança dos empresários estará garantida, já a do trabalhador, quem se importa? Sempre há uma fila de precarizados à disposição e o importante é que estaremos deixando o mercado se auto-ajustar com eficiência. Nenhum desses mitos é novo e são inúmeros os estudos, inclusive do insuspeito FMI, que demonstram a incoerência e inveracidade desses argumentos. Movimentações no sentido da flexibilização já foram implementadas no país nos anos 1990, sob a mesma retórica, provocando aumento do desemprego e da desigualdade. A taxa de rotatividade no Brasil é de 46%, uma das mais altas do mundo, e o salário no ano passado registrou patamares menores do que na China, desmistificando também a ideia de que a legislação impede o ajuste do mercado e de que os salários são altos[10].

No âmbito das propostas dos ruralistas à reforma, os absurdos conseguem atingir proporção ainda mais dantesca. Estamos no ano de 2017, creio eu, mas o presidente da bancada ruralista, Nilson Leitão (PSDB), pode vir à público, sem constrangimento algum e propor na Câmara dos Deputados que trabalhadores rurais (14% da população ativa[11]) possam receber moradia e alimento em vez de salários, que possam trabalhar por 12 horas por dia (no campo!), e por 18 dias seguidos, sem folga, dentre outras crueldades inomináveis. Então, vamos explicitar a lógica dessas pessoas, que convivem no mesmo espaço-tempo que nós: alegam que as leis são atrasadas, mas almejam modernizá-las para o século XVII; se existe um alto grau de informalidade, em vez de aumentar a formalidade, como vinha sendo feito[12], desejam institucionalizar a falta de direitos para todos; se temos muitos processos trabalhistas, extinguimos a Justiça do Trabalho; se temos todos os anos resgate de pessoas dormindo em tapumes, sem receber salários, submetidas a jornadas exaustivas e pedindo restos de comida[13], a solução é submeter um projeto de lei legalizando o trabalho escravo.

O mito do imposto sindical

Deixo como referência o texto de Jorge Souto Maior[14], juiz do trabalho, para o aprofundamento em detalhe das demais atrocidades da reforma, mas creio que é necessário aqui discutir um último mito, que foi o principal artifício para desmobilizar e difamar a greve do dia 28, o Imposto ou Contribuição Sindical. Gustavo Franco, em seu artigo já mencionado, ignora ou finge ignorar todos os profundos e reais retrocessos que a reforma garante aos trabalhadores e alega que a greve foi destinada a garantir a boquinha dos sindicatos e por isso era normal haver esperneio e gás lacrimogêneo. A desonestidade intelectual já fica explícita uma vez que a greve geral foi convocada em 27 de março, e a proposta de acabar com o imposto sindical só foi incluída no parecer de Rogério Marinho em 12 de abril[15]. O argumento é ainda mais risível, uma vez que a CUT e o Ministério Público do Trabalho, participantes ativos da greve geral, são historicamente contra o Imposto Sindical[16]. Mesmo porque as grandes centrais não são dependentes dessa fonte de financiamento, assim como não o são as grandes confederações patronais (FIESP, CNI, CNA, FIRJAN, CNC). E por isso podem defender de peito aberto o fim da contribuição sindical e da contribuição patronal[17]. Para a FIESP, por exemplo, o valor da contribuição patronal representa apenas 10% do seu orçamento, pois na verdade, as confederações sobrevivem de um desvio de recursos públicos muito maior, por meio do sistema S (SESC, SENAI, SENAC, SENAT etc.). Enquanto as contribuições sindicais equivalem a R$2,1 bilhões ao ano, as patronais equivalem a R$934 milhões, e as receitas do sistema S, a R$16 bilhões[18].

Ainda à luz desses dados, o fim das contribuições, sindical e patronal, gerou mais tensões dentro da base do próprio governo do que na motivação das pessoas que foram às ruas contra as reformas. Skaf a princípio se colocou contrário a perder esses milhões por ano e solicitou almoço com o relator Rogério Marinho para discutir o tema[19], em seguida calculou que seria melhor se colocar contra o imposto sindical para difamar a greve e continuar sobrevivendo de recursos do sistema S. Ronaldo Nogueira (PTB), atual ministro do trabalho, também se viu traído pela medida, uma vez que R$582 milhões da contribuição vão para o Ministério do Trabalho. Por fim, o impacto da extinção desse imposto irá inviabilizar diversas entidades sindicais menores e, caso as reformas passem, não se sabe se o efeito disso será ainda mais catastrófico, em um cenário de prevalência do negociado sobre o legislado. Fato é que a greve não teve de forma alguma como principal reivindicação a permanência do imposto sindical, mas sim a permanência de direitos básicos, que estão sendo retirados noite e dia a canetadas por um governo ilegítimo.

 

Alguns outros números relevantes

296 é o número de deputados[20] que votaram a favor da reforma que irá modificar a vida de milhões de trabalhadores. 3 é o número de exonerações que Temer promoveu como retaliação aos deputados que votaram contra[21], pois é assim que um patrão negocia. 153 é o número de emendas redigidas por lobistas patronais que foram aceitas na reforma[22]. 0 é o número de emendas escritas por trabalhadores. Centenas de milhares de reais é o que empresas devedoras doaram às campanhas dos deputados para que eles fizessem uma reforma trabalhista. 2 foi o número de vezes que Rodrigo Maia permitiu que votassem o caráter de urgência dessa reforma, até que conseguissem. 844 foi o número total de emendas apresentadas, que irão mudar a vida dos mais pobres e que foram votadas sem transparência nem diálogo, em menos de uma semana[23]. 21 é o número de trabalhadores que foram resgatados essa semana em Goiás, trabalhando 14 horas por dia, dormindo no chão, sem água, sem energia, com salários atrasados em mais de 2 meses, e pedindo sobras de carne nos açougues e comida para os vizinhos[24]. De cada 10 pessoas resgatadas em trabalho escravo, 9 são terceirizadas[25]. Ao menos 10 pessoas que não eram sindicalistas defendendo uma boquinha, foram gravemente feridas exercendo seu direito de manifestação no RJ. 1 bomba de gás foi jogada no rosto de um estudante, que estava saindo da manifestação[26]. 1 bala de borracha acertou o olho do filho de um Policial Militar, que pode perder a visão[27]. 21 pontos no pescoço levou uma bibliotecária atingida por uma bala de raspão[28]. 178 países assinaram convenção internacional que classifica gás lacrimogêneo como arma química, mas ele pode ser usado em manifestações[29]. Com 14 anos começou a trabalhar o estudante, que estava se dispersando da manifestação, quando foi atingido com um golpe na cabeça por um capitão da PM.

Com certeza, Gustavo Franco nunca teve que passar por agressões da PM exercendo seu direito de se manifestar. Ele, assim como Temer, Rogério Marinho, Henrique Meirelles, Skaf, e todos esses personagens, sabem muito bem o jogo de forças que sempre esteve posto, e que está se acirrando a cada dia, o jogo dos poderosos, que já nascem com suas boquinhas garantidas e sempre querem ganhar mais, contra os trabalhadores, que sempre tem que lutar pela sobrevivência e para não perder direitos. Não podemos admitir é que os trabalhadores caiam em uma retórica, retrógrada até para os padrões de um século atrás, de que não é possível conciliar direitos e vida digna para os trabalhadores com emprego para todos. Uma retórica tortuosa e desonesta que sempre insinua que garantir a dignidade dos mais vulneráveis e tratar o trabalhador como hipossuficiente perante a lei é trata-lo como coitadinho, enquanto permitir que a desigualdade e precariedade assole o país é tratar o trabalhador com dignidade. Nesse contexto, mais alguns números para o debate. Nenhuma classe dominante jamais abriu mão de seus privilégios por vontade própria e nenhum direito trabalhista foi conquistado por abaixo assinado. A sexta-feira que passou foi dedicada a isso. Luta que segue.

[1] https://www.cartacapital.com.br/politica/depois-da-greve-geral

[2] http://www.redebrasilatual.com.br/trabalho/2017/05/consulta-publica-senado-95-por-cento-contestam-%20reforma-trabalhista

[3] https://www.cartacapital.com.br/politica/rejeicao-as-reformas-de-temer-beira-a-unanimidade-aponta-pesquisa

[4] http://brasilemsintese.ibge.gov.br/trabalho/posicao-na-ocupacao.html

[5] https://oglobo.globo.com/economia/reforma-trabalhista-so-comeco-21278054

[6] http://justificando.cartacapital.com.br/2016/06/20/justica-do-trabalho-e-primeiro-alvo-de-falacias-em-tempos-de-crise-economica/

[7] http://epocanegocios.globo.com/Brasil/noticia/2017/01/numero-de-acidentes-de-trabalho-cai-mas-especialistas-veem-subnotificacao.html

[8] https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2015/05/13/em-20-anos-49-mil-trabalhadores-foram-resgatados-de-trabalho-escravo.htm

[9] http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-02/devedores-da-previdencia-devem-quase-tres-vezes-o-deficit-do-setor

[10] http://brasildebate.com.br/6-mitos-da-reforma-trabalhista/

[11] http://brasilemsintese.ibge.gov.br/trabalho.html

[12] https://nacoesunidas.org/numero-de-trabalhadores-sindicalizados-no-brasil-atinge-maior-patamar-desde-2004-segundo-ibgeoit/

[13] http://www.capitalteresina.com.br/noticias/brasil/trabalhadores-sao-resgatados-em-condicoes-analogas-a-de-escravos-50696.html

[14] http://www.jorgesoutomaior.com/blog/a-quem-interessa-essa-reforma-trabalhista

[15] https://charlesbruxel.jusbrasil.com.br/artigos/453563112/mito-ou-realidade-o-fim-do-imposto-sindical-e-o-verdadeiro-motivo-da-greve-geral?ref=topic_feed

[16] http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/TRABALHO-E-PREVIDENCIA/206140-CUT-E-MINISTERIO-PUBLICO-DO-TRABALHO-DEFENDEM-FIM-DO-IMPOSTO-SINDICAL.html

[17] http://www.intersindicalcentral.com.br/vitor-hugo-tonin-cara-de-pato/

[18] http://www.valor.com.br/politica/4950364/o-desmonte-parcial-do-corporativismo

[19] https://www.cartacapital.com.br/blogs/cartas-da-esplanada/por-pressao-dos-patroes-temer-pode-vetar-fim-da-contribuicao-sindical-1

[20] https://www.cartacapital.com.br/blogs/parlatorio/reforma-trabalhista-como-votaram-os-deputados

[21] http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/05/1880333-temer-demite-indicados-de-infieis-que-votaram-contra-a-reforma-trabalhista.shtml

[22] https://theintercept.com/2017/04/26/lobistas-de-bancos-industrias-e-transportes-quem-esta-por-tras-das-emendas-da-reforma-trabalhista/

[23] http://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2017-04/reforma-trabalhista-recebe-844-emendas-relatorio-deve-ser-apresentado-na

[24]http://www.capitalteresina.com.br/noticias/brasil/trabalhadores-sao-resgatados-em-condicoes-analogas-a-de-escravos-50696.html

[25] http://cartacampinas.com.br/2017/03/terceirizacao-de-cada-10-pessoas-resgatadas-do-trabalho-escravo-9-sao-da-terceirizacao/

[26] http://extra.globo.com/noticias/rio/estudante-passara-por-cirurgia-apos-ser-atingido-por-bomba-de-gas-em-protesto-no-rio-covardia-21280657.html

[27] http://extra.globo.com/noticias/rio/filho-de-pm-pode-ficar-cego-apos-ser-atingido-por-bala-de-borracha-em-manifestacao-21289705.html?utm_source=Twitter&utm_medium=Social&utm_campaign=Extra

[28] http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/ferida-por-bala-de-borracha-em-protesto-no-rio-levou-21-pontos-no-pescoco.ghtml

[29] http://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/05/1880115-por-que-o-gas-lacrimogeneo-e-usado-em-protestos-mas-proibido-na-guerra.shtml

Desigualdade / Inequality, Política, Sociologia, Tempo e História, Vida

Indivíduo e História (ou porque estudar história importa)

Eu ando pensado muito no nosso tempo de vida versus o tempo histórico, deve ser a idade. Também deve ser porque acho que grande parte da nossa ansiedade vem do fato de que o cotidiano se acelera cada vez mais, mas a história ainda tem o seu tempo próprio. Como fazer um debate evoluir de uma geração pra outra, fazendo com que um ponto mínimo de consenso ultrapasse o ponto mínimo anterior de consenso? Como passamos de uma geração que achava a escravidão normal para uma que não acha? Como passaremos de uma geração que se preocupa mais com violência dos manifestantes para uma que se preocupa mais com violência de Estado ou com a violência da desigualdade?

O papel das instituições dominantes é crucial em fazer uma geração desconhecer ou ignorar o que a outra conquistou e como ela conquistou, justamente porque isso retarda o ponto de partida das discussões, que ficam fragmentadas em indivíduos e episódios, mas que na verdade fazem parte de um longo processo histórico único. Essas discussões sobre greve, piquete, direito de ir e vir, coletivismo versus individualidade, violência nas manifestações versus violência estatal cotidiana, elas são as mesmas pelo menos desde a revolução francesa, e com variações, desde que existe Estado. Eu leio uns livros do século XVIII e parece que estou lendo as discussões do facebook, só que escritas com mais boniteza…

As pessoas discutem como se elas fossem coisas novas e únicas porque as peculiaridades das grandes mudanças históricas não são encorajadas a serem debatidas de forma corrente pelo conjunto da população. Pelo contrário, são processos de quebra da normalidade, e por isso, são velados, deturpados e romantizados, até que as pessoas se vêem no meio desse movimento histórico, que viola o seu cotidiano, e de repente têm que pensar e dialogar sobre isso, com a cabeça de quem foi ensinado a não pensar nisso. E se começa do zero e com os conceitos pré-estabelecidos pelas instituições dominantes, que são destinadas a blindar o cotidiano de qualquer desvio, por mais surreal que o próprio cotidiano seja.

Então o nosso papel deve ser esse, de manter o debate aceso, os movimentos históricos às claras, mostrar as evidências, e tudo que já foi debatido tantas outras vezes no passado, para que, talvez, a geração futura parta de um ponto de vista diferente.Creio que a minha é uma geração de pelegos porque a gente nasceu ainda sobre a influência de um relativo pacto social que estava acontecendo mais ou menos até os anos 1970. Atualmente, vivemos os resultados do fim disso e o acirramento dos conflitos, cujo lado positivo é a potencialidade de reativar debates e formar uma próxima geração de pessoas conscientes. Escrevo isso porque fico um pouco esperançosa de ver nessas redes pessoas mais novas se deparando pela primeira vez com conflitos sociais e tendo que refletir sobre eles talvez mais cedo do que eu tive. Escrevo também porque é cansativo denunciar sempre as mesmas coisas, e a velocidade das mídias e o acirramento dos conflitos, ambos crescentes, vão tornar tudo mais extenuante ainda pra quem luta, mas deve valer a pena

Brasil, Congresso, Economia, Política, Reforma Trabalhista

Um golpe por dia

(Publicado também pela Carta Capital)

Nessa semana mais um golpe contra a população foi dado na Câmara dos Deputados, com a instituição do caráter de urgência para a aprovação da reforma trabalhista (PL 6786/20161), de autoria do Executivo e de relatoria de Rogério Marinho (PSDB). A manobra ocorre um dia após já ter sido tentada pela primeira vez, quando perdeu a votação, graças à atuação ativa e de denúncia dos parlamentares Luiza Erundina (PSOL), Glauber Braga (PSOL) e Alessandro Molon (Rede). No entanto, as manobras tentadas vários dias seguidos já são conhecidas e têm inclusive um apelido, “o estilo Cunha” de governar. Não bastasse a lei de terceirização plena, aprovada a menos de um mês, o projeto de reforma trabalhista que está posto reforça e complementa a terceirização, além de supor retoricamente, um mundo onde existe igualdade de forças e condições entre trabalhadores (que, mesmo nas grandes cidades, ainda são encontrados sem acesso a banheiro, água e nem aos seus salários integrais2) e empresários (que alugam parlamentares por milhões de reais para produzirem leis em seu benefício3).

Um exemplo da condição de “igualdade” em que se encontram trabalhadores e empresários pode ser ilustrada pelo o próprio PL. O relator da matéria, Rogério Marinho, acatando a “pedidos” do agronegócio, incluiu no seu parecer o fim das horas in itinere4, que são horas contadas no contrato quando o trabalho é de difícil acesso ou sem transporte regular. Ou seja, enquanto o trabalhador não tem nem transporte adequado para chegar ao trabalho, o patrão tem condições de pagar o parlamentar para alterar uma lei em seu favor. Esse novo presente dos parlamentares aos patrões traz algumas das seguintes “modernizações”: (i) o negociado acima do legislado, após já haver enfraquecido qualquer poder que a categoria pudesse ter, por meio da fragmentação das terceirizações; (ii) retira a responsabilização das empresas envolvidas em cadeia produtiva, indo na contramão dos demais países, e também retira a responsabilização solidária de empresas que recorrem às terceirizações e quarteirizações, onde vigora a maior parte do trabalho escravo e da precarização; (iii) institucionaliza a pejotização (negando proteção trabalhista onde existe vínculo e exclusividade); (iv) cria o contrato ultraflexível, sem horas definidas de antemão, mas que serão definidas na hora, ao bel prazer do empregador; (v) limita a priori um teto para valor indenizatório em 50 vezes o último salário, não importando se o trabalhador, por exemplo, perdeu a visão, um membro ou morreu em serviço; (vi) o negociado sobre o legislado poderá prevalecer inclusive em questões que não deveriam sequer ser passíveis de negociação, como condições de higiene, segurança, salubridade e intervalos para alimentação e descanso5.

Por óbvio que o PL não incorpora nenhuma das demandas atuais da justiça do trabalho, mas sim, normatiza de bom grado todas aquelas que agradam ao empresariado, como apontado por Jorge Souto Maior no programa Roda Viva do último dia 176. O juiz também deixa claro que o maior problema enfrentado pela justiça do trabalho atualmente, o das empresas que reiteradamente não pagam seus débitos trabalhistas e que apresentam irregularidades sistemáticas, é ignorado. Esses grandes problemas que enfrentamos não são novidade para qualquer um que esteja minimamente a par da situação trabalhista no Brasil, ou que vislumbre a enorme lista suja de empresas envolvidas com trabalho escravo ainda no século XXI7, mas é claro que essa não é uma preocupação do projeto de lei, vez que estamos em um país no qual o presidente da Câmara dos Deputados não se intimida em dizer que “a justiça do trabalho não deveria nem existir”8. Aliás, como parece muito difícil para as empresas pararem de usufruir do trabalho escravo, uma das preocupações frequentes dos parlamentares tem sido justamente alterar a definição do que é trabalho análogo à escravidão9.

Ao contrário do que é alegado, as terceirizações e flexibilizações tendem a produzir precarização do trabalho, diminuição de salários e aumento de horas de trabalhadas, e não possuem relação significativa com o aumento de emprego, de acordo com estudo abrangente feito pela OIT10. Aliás, conforme mencionado também por Jorge Souto, essa retórica já foi utilizada e implementada nos anos 1990, sem efeito na produção de emprego, mas sim com degradação das condições de trabalho e aumento da desigualdade. Sabemos que o argumento do aumento de emprego é o pretexto utilizado por economistas e entusiastas do neoliberalismo. O irônico é que os relatores, ministros, investidores e grandes empresários que serão presenteados financeiramente com tais medidas também têm total consciência das retóricas econômicas que precisam ser ditas, mesmo que elas não tenham aderência nenhuma à realidade. Sabem que elas têm respaldo nas teorias econômicas pró-capitalistas e que serão ecoadas por aqueles que têm tudo a perder com isso, mas que seguem como fiéis debatedores, defensores da fortuna alheia, crendo que estão prezando pela boa gestão do país e resguardando modelos econômicos incontestáveis. Seria risível se não fosse trágico.

Deveria ser ponto pacífico que as leis trabalhistas tiveram que ser criadas justamente porque as partes têm forças desiguais e o trabalho dos empresários é se esforçar para gastar o mínimo possível, auferindo o máximo, não sendo isso uma condição de um empresário malvado, mas apenas um reflexo objetivo do sistema econômico, que visa lucro e não o bem-estar do trabalhador. Se mesmo sob as leis de respeito mínimo ao trabalhador, elas são sistematicamente burladas, devemos esperar que a estima pelo bem-estar espontaneamente brote em um ambiente sem leis? Os objetivos dos nossos políticos, que, por sua vez, refletem o sistema político, são mais complexos do que os objetivos empresariais. Isso porque eles respondem a demandas contraditórias e o resultado de suas ações dependem da força resultante dessas demandas. Se por um lado, eles dependem dos financiadores de campanha e tendem a responder majoritariamente a esses, por outro, eles também precisam de votos para se reeleger, e por mais que o dinheiro para a campanha seja uma variável quase milagrosa, grandes escândalos midiáticos, denúncias e participações em projetos de lei impopulares podem frustrar os investimentos das candidaturas. É por esse motivo que Pedro Otoni identificou, em artigo dessa semana11, que os elos fracos da corrente de maldades do governo, os deputados, já apresentavam discórdia com os mandantes (Temer, Meirelles e demais ministros) e deixam transparecer os sinais de fraqueza e ruptura da coesão golpista. Diferentemente de Temer e Meirelles, que precisam se preocupar apenas com a popularidade que detêm entre banqueiros e empresários, os parlamentares têm algo a perder com a votação das reformas e é nesse sentido que se faz necessário expor um a um os elementos que atuam nos golpes diários da Câmara.

Gostaria de ilustrar com o episódio dessa semana alguns dos motivos das recentes reformas, que não são encontrados em nenhum modelo econômico. Uma pesquisa rápida nas prestações de contas das campanhas de 201412 e nas inscrições de dívidas ativas com a União13 nos dizem muito sobre as motivações de alguns dos personagens envolvidos na votação. Não entrarei no mérito das acusações recentes sobre caixa dois no âmbito da Lava Jato e nem me aprofundarei em rastrear as doações para os partidos e as que são feitas de forma pulverizada, por meio de diversos CNPJ e CPF, mas ligadas a mesma empresa. Me deterei apenas às doações individuaisexplícitas e legalizadas, feitas para as campanhas de 2014. A dívida ativa das empresas com a União representa o total das dívidas, contabilizando FGTS, previdenciárias e não previdenciárias. Seguem abaixo os dados discriminados, com as doações às campanhas e as dívidas com a União, respectivamente.

Rodrigo Maia (DEM-RJ) – presidente da Câmara

  • JBS – R$100.000 / Dívida ativa com a União: R$122.823.974,35
  • F’na e Ourogestao de Franchising e Negocios (Praiamar) – R$200.000 / Dívida ativa com a União: R$19.794.074,08

Rogério Marinho (PSDB) – relator na câmara do PL 6786

  • Alesat Combustíveis – R$40.000 / Dívida ativa com a União: R$1.224.689,38

*Destaca-se também a doação individual de R$100.000 de Zuleika Borges Torrealba, matriarca do grupo Libra de logística, que já esteve no centro de um favorecimento na licitação de um porto, envolvendo Eduardo Cunha e Michel Temer no ano passado.

Aguinaldo Ribeiro (PP)

  • JBS – R$500.000
  • Itau Unibanco – R$100.000 / Dívida ativa com a União: R$13.237.731,53
  • Galvao Engenharia – R$270.000 / Dívida ativa com a União: R$3.125.042,07

Tereza Cristina Correa da Costa Dias (PSB)

  • JBS – R$103.000
  • Itau Unibanco – R$50.000
  • Energética Santa Helena – R$200.000 / Dívida Ativa com a União: R$39.105.281,35
  • Braskem – R$100.000 / Dívida Ativa com a União: R$734.963,78
  • Cabral Gomes Advogados Associados – R$25.000 / Dívida Ativa com a União: R$18.734.963,78
  • Spal Industria Brasileira de Bebidas – R$70.000 / Dívida Ativa com a União: R$2.041.302,41
  • Cosan Lubrificantes E Especialidades S.A. – R$200.000 / Dívida Ativa com a União: R$237.841,60

Prof. Victório Galli Filho (PSC)

  • JBS – R$30.000
  • Três Irmãos Engenharia – R$85.000 / Dívida ativa com a União: R$5.734.126,51
  • Cervejaria Petrópolis – R$224.300 / Dívida ativa com a União: R$4.888.999,51

Arthur Lira (PP)

  • JBS – R$500.000

Efraim Araújo Filho (DEM)

  • JBS – R$100.000
  • Cosan Lubrificantes e Especialidades – R$50.000

Arnaldo Jordy (PPS)

  • Comitê financeiro único do PSDB – R$290.000

*Destaca-se aqui que o deputado representa um partido a mais na comissão, mas que tende a votar de acordo com o PSDB.

Baleia Rossi (PMDB)

  • JBS – R$150.000
  • Cosan Lubrificantes e Especialidades – R$116.000
  • IREP Sociedade de Ensino – R$100.000 / Dívida ativa com a União: R$711.166,02

Cleber Verde (PRB)

  • W Torre Engenharia – R$40.000 / Dívida ativa com a União: R$65.024.920,07
  • Andrade Gutierrez – R$100.000 / Dívida ativa com a União: R$843.783,45

Ricardo Tripoli (PSDB)

  • Bradesco Vida e Previdência – R$150.000 / Dívida ativa com a União: R$17.034.964,78
  • Cia Agricola Fazenda Rio Pardo – R$100.000 / Dívida ativa com a União: R$1.034.780,98
  • Di Genio e Patti Curso Objetivo – R$300.000 / Dívida ativa com a União: R$235.625,56

Aelton José de Freitas (PR)

  • JBS – R$700.000
  • Bradesco Vida e Previdência – R$200.000
  • Andrade e Gutierrez – R$300.000
  • Angra System & Service – R$170.000 / Dívida ativa com a União: R$2.854.367,23
  • Gráfica 3 Pinti – R$80.000 / Dívida ativa com a União: R$2.651.949,22
  • Tamasa Engenharia – R$30.000 / Dívida ativa com a União: R$1.016.041,08

Junior Marreca (PEN)

  • Distribuidora Filgueira de bebidas – R$108.000 / Dívida ativa com a União: R$886.234,76

Marcos Montes (PSD)

  • Cosan Lubrificantes – R$150.000
  • BRF – R$200.000 / Dívida ativa com a União: R$135.440.350,23
  • Minerações Brasileiras Reunidas – R$500.000 / Dívida ativa com a União: R$20.859.920,10
  • Cenibra – R$20.000 / Dívida ativa com a União: R$13.772.136,49
  • Usina Santo Angelo – R$60.000 / Dívida ativa com a União: R$6.446.737,58
  • Usina Cerradão – R$30.000 / Dívida ativa com a União: R$284.618,26

Os números explicitam empresas reiteradamente inadimplentes com seus débitos trabalhistas, que se acumulam aos milhares, milhões e até bilhões, mas que curiosamente dispõem de dinheiro para investir em apoio a candidatos. Algumas estão inclusive em processo de falência, mas mesmo assim têm dinheiro para as doações. É claro que os interesses vão muito além da reforma trabalhista. Diversos projetos estão na ordem do dia, sendo aprovados a toque de caixa, para extorquir direitos históricos conquistados, como saúde e educação públicas, direitos trabalhistas e direito à aposentadoria, para favorecer planos de saúde e previdência privados, institutos de educação privados, e fundos de investimentos em educação, por exemplo. Onde enxergamos direitos, os empresários e seus parlamentares enxergam apenas uma enorme oportunidade para aumento de lucros. O agora ministro, Henrique Meirelles, intercala sua vida entre setor privado e público, mas sempre movimentando o dinheiro em um sentido único, do público para o privado, e afirma hoje com firmeza que a previdência está quebrada e a reforma proposta se faz necessária. Curioso é que o mesmo Henrique Meirelles presidia, há pouco mais de um ano, a controladora da JBS, que acumulava déficits milionários com o fisco e com os trabalhadores, ao mesmo tempo em que tinha dinheiro para ser destinado a praticamente todos os parlamentares.

Rogério Marinho, relator do projeto que finaliza o desmonte da CLT, aproveitou a liberdade do ambiente convidativo que usufruía no Roda Viva para atacar a única voz dissonante do programa, o juiz Jorge Souto, e fazer a sua interpretação exótica do Mito da Caverna de Platão. Disse o deputado que os defensores da CLT se assemelhavam às pessoas dentro da caverna que precisavam enxergar o mundo real, no qual as relações trabalhistas estão modificadas. Pois a mim parece que podemos entrar e sair da caverna, década após década, século após século e iremos encontrar invariavelmente os mesmos personagens de uma classe abastada, utilizando das mesmas falácias e pretextos, do dinheiro e poder, lícito ou ilícito, para acumular para si o máximo possível. Para essa classe não importam coisas menores como dignidade do trabalhador, desigualdade, sobrevivência dos povos tradicionais e meio ambiente. Passam os anos e a desfaçatez e ganância permanecem inalteradas.

¹ PL 6786/2016. Disponível em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=2122076

² FISCAIS flagram haitianos em trabalho precário… Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2016/12/1839013-fiscais-flagram-haitianos-em-trabalho-precario-no-hospital-das-clinicas-de-sp.shtml 

3  O PORTO inseguro. Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/revista/912/o-porto-inseguro

4 RELATOR ACATA pedidos do agronegócio… Disponível em: http://www.valor.com.br/politica/4935832/relator-acata-pedidos-do-agronegocio

5 CONHEÇA direitos que você vai perder… Blog do Sakamoto. Disponível em: https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2017/04/15/conheca-direitos-que-voce-vai-perder-com-a-reforma-trabalhista/

6 RODA VIVA recebe o deputado federal Rogério Marinho (PSDB). 17 de Abril de 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=eSE9wTnDJjA

7 LISTA suja do trabalho escravo. Disponível em: http://reporterbrasil.org.br/listasuja/resultado.php

8 JUSTIÇA do trabalho não deveria nem existir. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/03/1864822-justica-do-trabalho-nao-deveria-nem-existir-diz-deputado-rodrigo-maia.shtml

9 ENTENDA o projeto de Lei que pretende mudar a definição de trabalho escravo no Brasil e nos ajude a lutar contra o retrocesso. Disponível em: https://www.clinicatrabalhoescravo.com/single-post/2016/05/01/Entenda-o-projeto-de-Lei-que-pretende-mudar-a-defini%C3%A7%C3%A3o-de-trabalho-escravo-no-Brasil-e-nos-ajude-a-lutar-contra-o-retrocesso

10 EYCK, Kim Van. Flexibilizing employment: an overview. International Labour Organization, Geneva, 2003. Disponível em: http://www.oit.org/wcmsp5/groups/public/—ed_emp/—emp_ent/—ifp_seed/documents/publication/wcms_117689.pdf

11 OTONI, Pedro. Seis elementos da conjuntura brasileira. Outras Palavras, 18 de abril de 2017. Disponível em: http://outraspalavras.net/brasil/seis-elementos-da-conjuntura-brasileira/.

12 PRESTAÇÃO de contas eleitorais. Disponível em: http://inter01.tse.jus.br/spceweb.consulta.receitasdespesas2014/abrirTelaReceitasCandidato.action

13 LISTA de devedores ativos da União. Disponível em: https://www2.pgfn.fazenda.gov.br/ecac/contribuinte/devedores/listaDevedores.jsf.

Feminismo

Punitivismo: remediação doentia

Ontem, devido a repercussão massiva do caso absurdo de um estupro coletivo no Rio de Janeiro, tive o desprazer de ler algumas pessoas apoiadoras de Bolsonaro comentando o caso. Argumentavam que tais episódios não aconteceriam se nós parássemos de culpar o machismo por essas mazelas, e apoiássemos o nobre deputado, que possui dentro do seu rol de brilhantes propostas a castração química de estupradores. Cabe mencionar, em primeiro lugar, que se esse ser humano realmente se indignasse com estupradores e violentadores, obviamente não exaltaria na Câmara dos Deputados e em rede nacional um coronel conhecido justamente por colocar ratos na vagina de mulheres. Também não associaria estupro à merecimento, como fez em famigerado episódio com a deputada Maria do Rosário. Enfim, se realmente se importasse com isso, não seria o indivíduo que ele é.

Eu adoraria ignorar enormemente a existência do Bolsonaro na minha vida, mas, no entanto, é preciso falar disso e de como as pessoas exaltam as ideias mais repugnantes e inócuas como supostamente medidas justas e eficazes. Quanto mais bárbaro é um crime, a tendência é de que as punições igualmente bárbaras e extremas soem como justiça e solução ao ouvido de algumas plateias. Os demagogos oportunistas sabem que é isso que faz sucesso, que choca e que dá ibope… E aí que sempre que algum crime hediondo acontece e tem repercussão, esses pulhas ganham espaço e a surrealidade vem a tona de novo… Castração química! Redução da maioridade penal! Pena de morte! Linchamento! Justiceiros!…  Civilização ou barbárie? Vocês já olharam os números? Já avaliaram a eficácia do punitivismo? Isso pra não falar de quando a pressa no justiçamento e a sede por vingança afeta inocentes e comete injustiças e atrocidades…

O Brasil tem a 4ª população carcerária do mundo, em relação à população total, de acordo com estudo de 2015, ficando atrás apenas de Tailândia, Rússia e Estados Unidos (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2015/06/23/prisoes-aumentam-e-brasil-tem-4-maior-populacao-carceraria-do-mundo.htm). Se o aumento dessa taxa continuar no mesmo ritmo, em 2075 teríamos um em cada dez brasileiros presos. Que cenário maravilhoso não? Ou seja, as prisões estão abarrotadas, cada vez se encarecera mais. Se dependesse de punição, nosso país estaria entre os mais seguros do mundo! A Lei Maria da Penha, embora representando grande avanço institucional no reconhecimento da violência específica contra a mulher, tem eficácia reduzida. Estudo de 2011 mostra que apesar de uma ligeira queda do feminicídio imediatamente após a vigência da lei, a mortalidade de mulheres por agressões voltou a subir logo em seguida, de modo que não houve impacto significativo da instituição da lei na taxa de feminicídio. (lei http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/130925_sum_estudo_feminicidio_leilagarcia.pdf).

Acontece que a punição é uma remediação tosca e na maioria das vezes extremamente falha, especialmente em casos como o da violência contra as mulheres. Querem os gênios da punição salvar as mulheres com mais encarceramento somado à negação da existência do machismo e da cultura do estupro. Querem reforçar noções doentias, como homem de bem, mulher pra casar, pregar heteronormatividade e homofobiapara, em seguida, punir estupradores como sendo monstros estranhos à sociedade ou seres desprovidos de suas faculdades mentais. Não, esses homens não são loucos. São homens perfeitamente ajustados a uma sociedade machista e patriarcal. 70%  dos casos de feminicídio são perpetrados justamente por parceiros íntimos e conhecidos, e não por alucinados na rua (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054).

Maior punitivismo não é apenas a proposta mais demagoga, como também a mais burra, que não olha para os dados e nem para o funcionamento da sociedade. Como os casos podem ser denunciados e punidos se essas mulheres são muitas vezes dependentes não só emocionalmente, mas financeiramente dos violentadores? Em uma sociedade patriarcal, muitas vezes o trabalho feminino nem sequer é monetizado. Como serão punidos se apenas 30% a 35% dos casos de estupro são conhecidos, e 10% chegam ao conhecimento da polícia? Como se 70% das vítimas são crianças e adolescentes? Como se 24% dos violentadores são os próprios pais ou padrastos? Como se 26% da população acredita que as roupas curtas da mulher justificam um ataque? (http://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054) Como se a gente cresce ouvindo que homem tem mais tesão do que mulher, que homem galinha é garanhão, e mulher tem que ser bela, recatada e do lar? Como se um estupro ou um homicídio às vezes é só uma leve transição do que até então se considerava ciúmes e possessão como prova de amor, com o aval da sociedade? Como se um diretor de teatro coloca a mão dentro do vestido de uma mulher ao vivo, e ele se explica dizendo que ‘A mulher não é um objeto, mas não deveria se apresentar como tal’ (http://oglobo.globo.com/cultura/revista-da-tv/meti-mao-na-menina-diz-gerald-thomas-sobre-nicole-bahls-8091253)? Como se existe um programa Pânico, que apresenta mulheres como bonecas sexuais sem cérebro para a família brasileira rir semanalmente?

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Se estupro é considerado piada e não caso de polícia ?

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Se alguém como Danilo Gentili tem audiência?

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Se existem propagandas como essa?

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Se a indústria da pornografia é toda voltada ao prazer masculino, mais especificamente, ao pênis, e ao sexo agressivo com mulheres, além de destruir a vida de muitas atrizes (https://www.youtube.com/watch?v=BMgAJwc7ocE)? Se os meninos são incentivados desde adolescentes a assistirem isso e a desrespeitar mulheres? Se é normal ser xingada na rua ou na balada por não responder a uma cantada ou não aceitar ficar com alguém? Se é normal em questão de segundos um “elogio” virar uma agressão?

E mesmo se as mulheres violentadas conseguem vencer todas essas barreiras, perceber os abusos antes que seja tarde demais e ter condições psicológicas e financeiras para se livrar do violentador e fazer a denúncia, podem ainda ser desacreditadas ou ridicularizadas pela própria polícia. Como maior punitivismo pode ser eficaz se dependemos de uma justiça que no Pará enviou uma menina de 15 anos acusada de furto a uma cela com 30 homens que praticaram todos os abusos com ela, sob anuência dos carcereiros? Se a juíza que participou dessa decisão seis anos depois foi promovida (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/10/03/no-para-juiza-que-mandou-menina-de-15-anos-para-cela-com-30-homens-e-promovida.htm)? Se existe um projeto de lei que visa simplesmente revogar a lei que dispõe atendimento às vítimas de violência sexual, como se as mulheres não fossem dignas de ajuda nessa situação (http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=586417)?

Vocês realmente acham que o problema é a falta de leis ou falta de dureza na punição e não tudo o que existe antes do crime? Não enxergam todo o contexto social que exalta relações de poder, comando e violência de homens para com mulheres, mas depois condena o homicídio, quando esse finalmente ocorre? Essa é a cultura do estupro e vocês podem negá-la o quanto quiserem. Afinal, tem gente que nega o aquecimento global e a teoria da evolução também. Vocês podem se cegar para as causas de um problema e tentar punir e remediar o quanto quiserem, mas vai ser só o caminho mais curto para a barbárie.