Retrofake news

Eu acredito que existe uma estratégia já bem avançada de desinformação e confusão da opinião pública por parte da direita, que está em linha com as previsões de quem estuda “fake news” e distopias tecnológicas. Lembro que li em algum lugar sobre apatia informacional, um cenário no qual a proliferação de notícias, falsas e verdadeiras, somada a uma segunda rodada de proliferação de checagem da sua veracidade, leva os indivíduos a abrirem mão de se informar, tamanha a complexidade que isso adquire. Além disso, existe ainda a possibilidade de trabalhar com as “fake news” de maneira reversa. Alguém pode fazer, ou dizer, ou aprovar algo absurdo e em seguida dizer que as notícias a respeito são “fake news”, quando na verdade não são. No entanto, uma vez dito que “é fake”, as pessoas decoram esse último status e já não se fala mais disso ou a notícia inicial perde sua credibilidade mesmo estando correta.

De cabeça aqui lembro de dois episódios recentes em que isso ficou muito claro. Escrevi um tempo atrás sobre a notícia da venda do aquífero guarani “para a coca-cola e nestlé”. Essa notícia correu de forma um tanto distorcida e gerou muita polêmica e mobilização. Logo em seguida, um monte de site de direita dizia que a notícia “era fake” e isso fez ela perder toda a sua credibilidade e morrer. No entanto, como eu disse na época, não era exatamente assim. É como se a primeira notícia tivesse sido plantada de forma deliberadamente distorcida, para em seguida ser descredibilizada como fake. Enquanto isso, na verdade, ainda corre de forma acelerada uma proposta do Tasso Jereissati (PSDB), que introduz “mercados de água” não só no aquífero guarani, como no país todo. A proposta modifica um artigo que atualmente proíbe a alienação de águas, resultando em um ambiente mais privatista e excludente com relação aos recursos do que o que já existe hoje.

A mesma dinâmica pode ser observada na semana passada e nessa semana com relação ao projeto em vias de ser aprovado que flexibiliza (mais ainda) a regulação de agrotóxicos no país, o PL do Veneno. Primeiro, por força dos movimentos de agroecologia, a bancada ruralista não havia conseguido colocar o projeto em votação. Em seguida, espalharam vídeos nas redes sociais e whatsapp dizendo de forma descaradamente mentirosa que a campanha dos movimentos de agroecologia contra o projeto era baseada em “fake news”. A partir daí, uma comissão especial da Câmara aprovou o projeto e, logo na sequencia, o deputado da bancada ruralista Luiz Nishimori (PR) encaminhou outro projeto que dificulta de forma bizarra a venda de orgânicos para produtores que não estejam cadastrados como agricultores familiares, colocando por terra, por exemplo, a compra de orgânicos por parte do governo para escolas, dentre outras coisas.

De forma muito estranha, a notícia que circulou, inclusive na grande mídia, foi uma interpretação totalmente distorcida desse projeto, que alegava que ele “proibia a venda de orgânicos nos supermercados”. De fato, o projeto não diz isso, o que não significa que ele não seja um projeto tenebroso e tão ruim para a sociedade quanto. No entanto, da forma como isso foi noticiado, parece que a proliferação da notícia distorcida foi um meio de desviar a atenção não apenas da crueldade desse projeto como da iminente aprovação do PL do Veneno.

Então, a moral da história é: a gente ta fudido, eles irão nos envenenar o quanto puderem, eles querem sim cercear mais ainda a venda de orgânicos, e nós temos que ficar cada vez mais atentos para combater não apenas fake news, como o fake da fake news. Enquanto a gente vai se afundando na lama privatista e destruidora de direitos, tenho colegas “cientificistas isentões” que estão ocupados em desmascarar fake news e falar contra “os desinformados que compartilham besteiras”, mas não conseguem enxergar como a crença em um rigor científico e informacional despolitizado é facilmente manipulada para servir aos piores interesses políticos e de classe. O mundo é complexo demais para esse cientificismo raso, bem como é injusto demais para tamanha despolitização, para não ter lado nessa luta.

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