Presentes

(Post de 15/03/2018)

Três dias atrás Paulo Sérgio, representante quilombola, foi assassinado por ter denunciado que a empresa norueguesa Hydro, uma das maiores produtoras de alumínio do mundo, jogava reiteradamente rejeitos químicos nos rios de Barcarena. Paulo Sergio havia solicitado proteção que foi negada pelo governo do Pará. Ele ficará presente na história ao lado de tantos outros assassinados políticos no Brasil, país que é o mais perigoso do mundo para ambientalistas. Ontem Marielle, relatora da comissão da intervenção no RJ, foi assassinada por ser uma vereadora de luta, que não se calava, que denunciava a violência policial e das milícias.

Essas atrocidades me lembram as inúmeras discussões que já tive com pessoas que me dizem “vocês, de esquerda, militantes, só reclamam e não propõem nada” ou “vocês só falam e não fazem nada”. Essas pessoas infelizmente desconhecem que as ações e proposições daqueles que lutam contra o poder são invisibilizadas ou inviabilizadas pelo dinheiro, pela lei burguesa, pela propaganda ou pela violência explícita, de forma que é justamente por isso que eles creem que “só falamos e não fazemos”. Pessoas de luta fazem coisas sobre-humanas e fazem o tempo inteiro, vivem para isso e não raro dão a vida por isso. Contra todas as adversidades e violência, fazem coisas lindas que todos os dias são apagadas e têm que ser reconstruídas do zero, com uma força inacreditável. E aqueles que nasceram com a coragem necessária para estarem na linha de frente, falando e fazendo, são frequentemente calados à bala, seja por milicianos, polícia, ruralistas, políticos, pessoas ou empresas poderosas.

Estamos vivendo um governo não eleito que retira direitos todos os dias e massacra a população com uma política privatista e neoliberal voraz. Em um país com pessoas vestindo camisetas pró-bolsonaro na rua, querendo mais armas para todos e extinção das minorias. Podemos não ser as pessoas mais qualificadas ou mais corajosas para fazermos a luta necessária e batermos de frente com isso, mas são os nossos corpos que estão aqui nesse momento da história, e coragem e posicionamento é o que esse momento exige de todos que se importam. As vidas e as mortes de Marielle, Paulo Sérgio, e de tantos pequenos agricultores, indígenas e militantes não serão em vão. A luta deles nos alimenta e a voz deles ecoa muito mais forte cada vez que a violência as tenta calar. Sigo muito triste no dia de hoje, mas com muito mais força do que ontem.

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