A culpa é das estrelas

Isabela Prado Callegari

04 de Abril de 2019

A direita agora diz que apesar da maravilhosa Reforma Trabalhista, o desemprego segue crescendo porque a retomada do crescimento está fraca e os empresários não estão confiantes o suficiente. Ué, mas não era a confiança dos empresários que trazia crescimento? A causalidade mudou agora? Também dizem que apesar da incrível PEC do Teto e da Reforma Trabalhista, a confiança ainda não veio de vez porque esse governo não passa estabilidade. Mas não foram eles que colocaram no poder um lunático fascistóide, que governa pelo twitter? Pelo menos, parece que está ficando inviável colocar a culpa no PT e jogaram a culpa para generalidades abstratas, como “o crescimento” e “a estabilidade”. Podem aproveitar que têm um astrólogo como mentor intelectual e começar a botar a culpa no alinhamento dos planetas também.

Ortodoxos argumentam com base em princípios invertidos de causalidade. A relação entre investimento e poupança é bom exemplo dessa inversão, visto que partem de um funcionamento ultrapassado do mecanismo de criação do dinheiro, e por isso argumentam que deve haver poupança prévia ao investimento. Heterodoxos, por outro lado, defendem que o investimento estatal é prévio a poupança, e essa é gerada por meio do multiplicador econômico. Keynes já em 1930 argumentava sob um entendimento de que o dinheiro não tem mais lastro físico (o que ocorre desde 1914), sendo assim, criado pelo Estado tendo como contrapartida apenas um papel de dívida. Por isso, pode-se “injetar dinheiro na economia” por meio de investimentos diretos ou facilitação de crédito e isso gerará demanda, produção, empregos e renda maiores do que o montante do investimento inicial. Assim, gera-se a poupança que pode pagar a dívida emitida inicialmente, causalidade que ficou comprovada pelo sucesso do new deal. Claro que o montante que pode ser emitido, o nível de dívida que pode ser sustentado, e como o multiplicador econômico irá agir, depende de uma série de fatores particulares, como a hierarquia de moedas, as reservas internas, o momento macroecônomico etc.

Só não é possível saber o quanto é ingênuo ou o quanto é dissimulado o entendimento da ortodoxia, porque toda essa linha de raciocínio fornece as bases para argumentos privatistas, de austeridade fiscal, venda de patrimônio e fim de serviços públicos. Quando a lógica ortodoxa está sendo desmentida pelos fatos, invertem subitamente as causalidades ou dizem que é porque não se liberalizou o suficiente e o tal do capitalismo ainda nem existiu…

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