Crítica a economia verde, Desigualdade / Inequality, Economia Ecológica, Ideologia, Meio ambiente

A Casa

Versão revisada de artigo publicado no Jornal dos Economistas, do CORECON-RJ, nº 422, de setembro de 2024.

É comum que a comparação da economia nacional com uma economia doméstica seja utilizada para justificar as políticas de austeridade, nos mais diferentes meios de comunicação. Tal argumentação ignora o fato de que o governo nacional não tem limitação de emissão da sua própria moeda, e que o crescimento econômico, o nível de tributos e a taxa de juros são variáveis dependentes das ações do governo, o que não é uma situação análoga à de uma família. Assim, como muitas vezes já contra-argumentado, a comparação está equivocada no que concerne ao sistema monetário e às variáveis macroeconômicas.

Longe da simples equivalência ou transposição de uma “pequena casa à grande casa”, no entanto, a etimologia da palavra Economia nos mostra que ela de fato significa “Administração da casa” ou “Regras da casa” (do grego, Oikos que é casa, moradia; e Nomos, que é administração, organização, distribuição). Ou seja, em um sentido amplo, estamos falando da administração dessa grande casa comum, considerando suas características específicas – que também se diferenciam daquelas de uma unidade familiar.  Assim, a palavra Economia está intimamente ligada ao conhecimento da nossa “casa”, pertinente à Ecologia, bem como, o exercício da Economia suporia o compromisso com a gestão equilibrada da atividade produtiva, dos elementos naturais usados como recursos, da reprodução social e da distribuição dos bens e serviços, tendo consciência do funcionamento da biosfera e dos impactos da ação antrópica. 

Isso nos remonta ao fato de que Aristóteles estabeleceu uma diferença crucial entre a Economia e a Crematística, onde a última seria o movimento feito em prol da acumulação do dinheiro por si mesmo. Assim, a Economia trataria da necessária troca monetária, derivada do uso do dinheiro como meio, enquanto a Crematística envolveria as ações e estratégias destinadas ao mero acúmulo financeiro. Fica evidente, portanto, que o que se exerce majoritariamente sob o nome de Economia é na verdade a chamada Crematística, para a satisfação dos objetivos capitalistas, ao passo em que é imprescindível e urgente aderirmos ao verdadeiro significado de Economia, indissociável da Ecologia, inclusive para a nossa sobrevivência e bem-estar.

Atualmente, estamos presenciando uma guinada – tanto alardeada quanto tardia – de discursos oficiais, políticas e financiamento para o enfrentamento das mudanças climáticas, frente à escalada de eventos ambientais extremos vividos pelas populações. No entanto, tais ações seguem ainda balizadas pela crematística, e à revelia das evidências ecológicas. Primeiramente, apenas no que concerne à questão climática, temos que o Holoceno (iniciado cerca de 11,65 mil anos atrás) é a Era geológica caracterizada por uma inédita estabilidade, que possibilitou a agricultura, o sedentarismo e o surgimento de sociedades complexas. Assim, os efeitos que estamos tentando conter envolvem secas sem precedentes, extinções em massa, derretimento das calotas polares e aumento do nível do mar, dentre outros decorrentes desses, e outros ainda não totalmente previsíveis. Colocado de outra forma, buscamos evitar que os seres humanos vivam em um cenário climático que nunca vivenciamos enquanto espécie.

Sá Barreto (2021a; 2021b) nos traz alguns dados de extrema relevância para dimensionarmos o crescimento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, que se dá nos últimos 250 anos. Durante a maior parte do Holoceno, tal concentração esteve em torno de 280 ppm (partes por milhão). Em 2012 atingiu-se o patamar de 439,9 ppm, o valor mais alto em 800 mil anos. Já em 2020, a concentração de CO2 apenas atingiu a marca de 409,9 ppm, algo sem precedentes para os últimos 3 milhões de anos. Além da óbvia coincidência desse aumento exponencial com a forma de produção desencadeada pela Revolução Industrial, a parcela de emissões derivada da atividade humana (emissões antropogênicas) também é verificável por meio da mensuração de diferentes isótopos de carbono.

Desde 2017 emitimos mais de 50 bilhões de toneladas de CO2 equivalente anualmente. Enquanto isso, estima-se que a vegetação do planeta absorva aproximadamente 5 bilhões de toneladas de CO2 equivalente por ano, de modo que cerca de 3 a 4 ppm se acumulam na atmosfera anualmente. Mesmo na pandemia, onde a atividade econômica diminuiu drasticamente e as emissões tiveram um recuo inédito, a concentração de gases na atmosfera seguiu em ascensão, pois nosso nível de emissões é muito superior do que a vegetação consegue capturar (Sá Barreto, 2021b).

Um problema adicional é que a relação entre a concentração de gases e a elevação da temperatura não é algo estável, como se imaginava anos atrás, uma vez que há pontos críticos e de não-retorno, devido à multiplicidade e complexidade dos fatores biogeofísicos envolvidos. Com isso, a realidade é que a temperatura da Terra já está 1,7 graus acima da média pré-industrial, e a meta mais leniente que temos, estabelecida no Acordo de Paris (2015), de manter essa diferença em no máximo 2 graus Celsius até 2100, será provavelmente descumprida já em 2030 (UOL, 2024). Outras metas, como as de manter a concentração de gases de efeito estufa entre 350 ppm e 550 ppm, ou então, de chegar em 2030 com um nível de emissões anuais de 23,3 bilhões de toneladas de CO2 equivalente, e 2050, com emissões nulas, também são diametralmente opostas à trajetória que estamos seguindo. 

Ainda, o clima é apenas um dos 9 limites planetários que estabelecem um espaço seguro para a nossa vida e a de outras espécies, 6 dos quais já foram ultrapassados: (i) mudanças climáticas; (ii) integridade da biosfera; (iii) mudanças no uso da terra (conversão da vegetação natural em outras paisagens); (iv) uso de recursos hídricos; (v) ciclos biogeoquímicos entre seres vivos, atmosfera, solo e água; e (vi) a liberação de novos produtos sintéticos no ambiente (microplásticos, resíduos nucleares, inseticidas etc.) (NEXO, 2024).

No entanto, todas as soluções apresentadas globalmente estão orientadas para o mesmo caminho, apostando na garantia de grandes somas de dinheiro voltadas ao desenvolvimento e implementação de novas tecnologias. O aumento da eficiência está no cerne da hipótese de descolamento (decoupling em inglês), que embasa a agenda da Economia Verde ou crescimento verde. Advoga-se que é possível seguir crescendo e mantendo o modo de consumo atual, ao mesmo tempo em que se diminui o impacto ambiental por meio da maior eficiência tecnológica.

Tal argumento guarda semelhança com a ideia de gotejamento (trickle-down economics, em inglês), de que os trabalhadores eventualmente se beneficiariam da acumulação capitalista, apesar da concentração de renda. As duas ideias se assemelham tanto por legitimarem o estado das coisas, na instância ecológica e social, respectivamente, como por serem dependentes uma da outra nesse momento histórico. Não apenas o padrão de consumo dos capitalistas é completamente desproporcional em termos de impacto ambiental, como é do seu interesse de classe que o mundo busque mimetizar o seu modo de vida, e que o consumo de massa seja impulsionado. Além disso, necessitam manter estratégias de obsolescência programada, de flexibilização ambiental e de expansão territorial, de modo que são convenientes as decisões políticas baseadas na hipótese de que a maior eficiência tecnológica basta. Por sua vez, a população, mesmo sofrendo o caos ambiental e social, acredita que o acúmulo infinito a beneficia, pelo gotejamento, e que, por isso, o único caminho é de fato o descolamento, e não uma reestruturação social profunda.

Parrique et al (2019) compilam evidências de que o foco exclusivo em melhorias técnicas é absolutamente insuficiente para a necessária diminuição na pressão ambiental, o que está relacionado a sete motivos chave. (I) Primeiramente, independente do grau de eficiência, quanto mais os elementos naturais são extraídos, proporcionalmente mais energia e recursos são usados por unidade extraída. (II) Em segundo lugar, a maior eficiência diminui o custo, de forma que o excedente monetário se reverte em aumento de consumo do mesmo bem ou de outros, o que é chamado de efeito rebote. (III) Em terceiro lugar, as melhorias técnicas em uma área tendem a acarretar novos problemas em outra. Como exemplo atual, temos que os produtos menos emissores de gases de efeito estufa utilizam uma quantidade extremamente superior de minerais. (IV) Em nome da hipótese do descolamento, muito se fala na migração para uma economia baseada em serviços. Porém, desconsidera-se que todos os serviços têm um lastro material e uma cadeia produtiva envolvida no seu provimento. (V) O potencial da reciclagem é limitado pela intensidade energética do processo, pela necessidade de adição de materiais novos, e pela menor capacidade de materiais reciclados atenderem às demandas sociais. (VI) Há um direcionamento falho do progresso técnico em si, muitas vezes incompatível com as necessidades ecológicas reais. (VII) E, por fim, muitas das evidências apresentadas em favor da hipótese de descolamento desconsideram que o impacto ambiental não foi diminuído, mas apenas migrou para outro país ou região.

Assim, observa-se que a necessidade de acumulação não apenas impulsiona politicamente a ideia de descolamento para o seu próprio objetivo, como condiciona as respostas ecológicas ao lucro, resultando em novos nichos de mercado igualmente expansivos e ambientalmente danosos, como o de painéis solares, e impedindo o desenvolvimento tecnológico e a viabilidade de outras ações ecologicamente necessárias, porém pouco rentáveis, como a reciclagem de certos materiais e a reestruturação das cidades. A produção de carros elétricos individuais é impulsionada como uma grande solução, mas há ausência de planejamento que diminua em larga escala a necessidade de carros individuais, por exemplo. Nesse sentido, embora o desenvolvimento técnico visando a eficiência seja sempre bem-vindo, a hipótese do descolamento serve para evitar o debate acerca da suficiência.

Mesmo dentro de um paradigma reformista, o Estado deve exercer o papel de desafiar a acumulação se quisermos de fato lidar com a crise climática. Vultuosos investimentos seguem sendo necessários, mas muitos serão incompatíveis com o lucro ou ainda, podem influenciar negativamente o lucro de ramos estabelecidos. Determinados produtos e setores teriam que ser descontinuados e deve haver planejamento para a realocação de trabalhadores, bem como um forte sistema de proteção social prévio.

O planejamento estatal deve também guiar a reorientação produtiva e possíveis reconversões industriais, bem como as empresas devem estar sujeitas a regras mais rigorosas de logística reversa de seus produtos. Por fim, em termos de cooperação internacional, é urgente que sejam banidas estratégias voltadas à obsolescência programada, e que os países periféricos tenham suas dívidas externas perdoadas e processos de dolarização revertidos, uma vez que a necessidade de atrair capital externo tende a impulsionar o extrativismo e a flexibilização ecológica.

Esses são apenas alguns exemplos de medidas voltadas à suficiência e à diminuição do uso de recursos de forma absoluta, que não dependem de grandes avanços tecnológicos, mas sim, requerem embates políticos que contrariam grandes interesses, e no limite, a própria lógica capitalista. E se por um lado, tais ações parecem politicamente irreais ou utópicas, por outro, são apenas consequências da análise concreta e das evidências. A urgência da suficiência deriva da realidade ecológica da nossa casa comum e não deveria haver nada de ambicioso em estabelecer regras para a nossa própria sobrevivência. Se isso nos parece impossível, não resta alternativa que não seja tornar possível o impossível.       

Referências

NEXO. O que são limites planetários. E quais já foram cruzados. Nexo Jornal, maio de 2024. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2024/05/25/limites-planetarios-o-que-sao.

PARRIQUE, T.; BARTH, J., BRIENS, F.; KERSCHNER, C.; KRAUS-POLK, A.; KUOKKANEN, A.; SPANGENBERG, J. H. Decoupling debunked: Evidence and arguments against green growth as a sole strategy for sustainability. European Environmental Bureau, 2019.

SÁ BARRETO, E. O Capital na Estufa. Rio de Janeiro: Consequência, 2018.

SÁ BARRETO, E. Panorâmica sobre mudanças climáticas. Locução de Eduardo Sá Barreto. Podcast Ecologia Marxista, janeiro de 2021.

SÁ BARRETO, E. Política Climática. Locução de Eduardo Sá Barreto. Podcast Ecologia Marxista, janeiro de 2021. 

UOL. Meta de aquecimento global para 2100 será descumprida em 6 anos, já em 2030. Meio Ambiente. São Paulo: Uol, fevereiro de 2024. 

Austeridade, Crítica a economia verde, Economia, Economia Ecológica, Meio ambiente, Política

Déficit zero: entre a mentira, a fome e a insustentabilidade

Isabela Callegari* 

Artigo produzido para a Edição n° 414 do Jornal dos Economistas, de fevereiro de 2024, incluindo na coletânea de artigos Os Loucos Anos 20, de 2025.

Frequentemente, parece ser mais elaborado o debate sobre os mitos da austeridade com não-economistas do que com economistas, uma vez que os primeiros não passaram anos estudando avidamente uma teoria fundada em uma premissa inicial equivocada – a de que a moeda nacional é limitada. Embora o senso comum esteja também intelectualmente comprometido com essa ideia, graças à sua repetição extensiva nos noticiários, aqueles que estudaram Economia fora do ambiente acadêmico não são fiéis a essa premissa fundante e tampouco estão buscando a validação intelectual de seus pares, atrelados, em maior ou menor medida, à teoria ortodoxa hegemônica. Com isso, tendem a ser mais receptivos às críticas mais radicais (daquilo que vai à raiz) à hegemonia e aos apontamentos de falhas nas suas premissas. 

Vemos hoje essa curiosa situação no debate governamental, social e midiático que se dá a respeito da meta de “déficit primário zero”, estabelecida pela área econômica do governo. O ministro Fernando Haddad é o propositor e defensor da referida meta, amplamente acolhida pelo mercado financeiro e por economistas – embora estes questionem a sua viabilidade -, enquanto o presidente Lula, os movimentos sociais, o Partido dos Trabalhadores e a sua presidente, Gleisi Hoffmann, vêm publicamente declarando que tal meta é tanto impraticável quanto indesejável.

De fato, a história nos mostra que figuras políticas têm conhecimento empírico a respeito do princípio da demanda efetiva, da importância de incorrer em déficits frente a crises e da capacidade irrestrita de pagamentos do governo central na sua própria moeda, independente de qualquer teorização a esse respeito. Ao mesmo tempo, a população vem crescentemente tomando conhecimento da natureza do sistema monetário moderno, pelas evidências da própria história recente. Os episódios, tanto da crise de 2008 quanto da crise derivada da pandemia da Covid-19, foram emblemáticos, uma vez que governos ao redor do mundo incorreram em grandes déficits – no primeiro caso, para o resgate de grandes instituições financeiras e no segundo, para manter o funcionamento da sociedade, a demanda e a proteção social mínima. E em ambos os casos, ficou evidente a possibilidade ilimitada de emissão da própria moeda, bem como, não foram verificadas as supostas consequências advindas de déficits e de aumento de dívida, alegadas pela teoria ortodoxa.

Tal desenvolvimento dos fatos e o contexto político dos últimos anos, que ensejaram um aprofundamento da crítica à austeridade em meio às organizações da sociedade civil, fizeram com que a discussão acerca da própria natureza da moeda fosse um tema de debate e que a Teoria da Moeda Moderna viesse a ascender no mundo todo. Ao mesmo tempo, até mesmo economistas ortodoxos de referência, como Olivier Blanchard, e o próprio FMI, vêm, há anos, flexibilizando sua narrativa em torno de ajustes fiscais, frente aos desastres provocados por projetos de austeridade. 

Nesse sentido, a proposta atual do governo brasileiro vem encarando severas e qualificadas críticas de economistas heterodoxos, dos movimentos sociais e do seu próprio partido. Muito já foi falado a respeito do caráter ideológico e neoliberal de uma proposta que busca cortar gastos em um contexto de capacidade ociosa e desindustrialização, no qual 8,3 milhões de pessoas ainda estão desempregadas e mais de 20 milhões passam fome. A crítica mais imediata e evidente a se fazer é que a meta trata apenas do resultado primário, isto é, delimita que gastos sociais e não-financeiros têm que ser cortados, buscando atingir um saldo zero, em relação à arrecadação. Enquanto isso, gastos financeiros, como juros da dívida, que em 2022 somaram espantosos R$586 bilhões, nunca serão sujeitos a nenhum tipo de limitação ou contingenciamento. 

Como bem apontado por Paulo Kliass em artigo recente, a ideia de dividir o resultado das contas governamentais em financeiro e não-financeiro, e buscar superávit somente para o último, foi algo imposto aos países do Sul Global nos anos 1980, pelo FMI e órgãos multilaterais, para subjugar os países periféricos a cortarem seus gastos e investimentos, e induzirem privatizações, em troca de terem suas dívidas externas renegociadas. Essa ideia de o governo “fazer a lição de casa”, cortando gastos destinados à população, para mostrar a detentores da dívida que está comprometido com os gastos financeiros, foi estendida ao contexto nacional e subnacional, nos quais tal formulação não faz sentido nenhum, uma vez que o governo nacional, emissor de dívida e de moeda, está chantageando a si próprio e aos entes subnacionais. 

A opção deliberada pela auto-restrição da capacidade governamental – o que significa uma opção ideológica pelo neoliberalismo -, fica explícita quando analisamos a situação à luz do entendimento correto do sistema monetário moderno. Isto é, se não existe uma limitação financeira na moeda nacional, a capacidade de realizar pagamentos nessa moeda está limitada apenas pela capacidade da economia real em ofertar bens e serviços mediante tais pagamentos, o que, quando superada, pode gerar inflação ou excesso de importações e desvalorização cambial. Ou seja, a restrição não é financeira, mas sim, dos recursos reais, o que constitui uma observação fundamental da teoria keynesiana (KEYNES, 2010). Portanto, o sentido em se estabelecer regras fiscais, com base em uma arbitrariedade financeira, como um nível de déficit primário, um nível de dívida em relação ao PIB, e pior, um “déficit zero”, só mostra o comprometimento ideológico com o corte de gastos públicos, que cumprem, por sua vez, uma série de funções políticas em prol do setor privado.

Nitidamente, essa é uma opção que tem custos de curto prazo para o capital, uma vez que limita a demanda aquém da oferta. No entanto, os ganhos políticos são duradouros, pois a austeridade mantém a correlação de forças favorável ao grande capital, dado que cortes nos gastos públicos acarretam diminuição da renda disponível, aumento do desemprego e da precariedade, diminuindo o poder de barganha dos trabalhadores. Ao mesmo tempo, o ajuste fiscal pressupõe um favorecimento à venda de patrimônio público e às privatizações e parcerias público-privadas (PPPs). Não por acaso, enquanto o governo propõe arcabouço fiscal e meta de déficit zero, simultaneamente aumenta as possibilidades de debêntures incentivadas, que terão garantia do Tesouro Nacional, destinadas a PPPs em áreas como segurança pública (incluindo aqui o nefasto incentivo à privatização de presídios), educação, saúde, parques urbanos, unidades de conservação e habitação social, dentre outros. Ou seja, enquanto cortam gastos primários diretos, viabilizam a possibilidade de emissão monetária para garantir projetos lucrativos à iniciativa privada em setores nos quais o objetivo do lucro representa um conflito de interesses intrínseco.

Por último, a questão ecológica, central no debate global hoje, deve ser aqui também pontuada, por suas relações inerentes com a economia e o sistema monetário. Alguns autores e autoras do campo da Economia Ecológica, dentre os/as quais, me incluo, vêm tentando apontar as similaridades e conexões das análises e propostas dessa linha de estudos com aquelas advindas da Teoria da Moeda Moderna, ou, simplesmente, vêm tentando alinhar o debate profundo acerca dos limites planetários com o entendimento correto do sistema monetário. Existem diversos pontos de acordo entre as duas linhas teóricas, nos quais uma se beneficiaria do entendimento da outra, como por exemplo, a ideia de que a acumulação depende da criação de escassez artificial, da comodificação de bens essenciais e de seu provimento de maneira não eficiente ecologicamente. 

Nesse sentido, comodificar também o dinheiro e criar uma escassez monetária artificial, que impede o provimento de bens essenciais de maneira eficiente e planejada, é tanto estratégico para o capitalismo, quanto é uma mentira econômica, danosa ambientalmente. Por outro lado, entender que a moeda não é um recurso limitado e que o governo pode prover tudo aquilo que a economia interna possa ofertar, inclusive, pode investir para a expansão dessa própria capacidade, é um ponto fundamental para corretamente enfrentar os desafios postos à humanidade (HICKEL etc al, 2023). O Brasil toma o caminho oposto, apostando mais uma vez na fracassada “Economia Verde” e na antítese de que seria possível aliar lucro e sustentabilidade para salvar o capitalismo de si mesmo, emitindo sua primeira série de “títulos verdes”. Opta assim por se endividar em dólares, realizar projetos rentáveis para grandes investidores, e que, supostamente, têm um retorno ambiental ou social, que não se sabe ao certo qual é. 

Essa estratégia, embora possa ser positiva em um caso ou outro, passa ao largo da recomendação dos ecologistas que estudam as propostas da Economia Verde e seus impactos há anos, e que entendem que a única solução real para os problemas que temos é a reestruturação urbana e industrial em larga escala, a aposta em bens comuns, a descontinuidade planejada de determinados produtos e setores econômicos e a garantia de emprego para todos, o que requer justamente uma grande intervenção estatal direta e a negação do princípio do lucro. A estratégia brasileira tampouco faz sentido para um país que tem soberania monetária, que tem US$88 bilhões no saldo de reservas e que pode investir na sua própria economia de maneira planejada e de longo prazo, em vez de voluntariamente se endividar em dólares, em projetos pouco transparentes para a sociedade, para agradar investidores que desejam retorno e propaganda verde. As ações governamentais no campo econômico e ecológico parecem apenas fazer reverência ao setor privado, mas não fazem sentido lógico sequer. 

*Isabela é mestra em Teoria Econômica pela Unicamp, pesquisadora do Instituto Eqüit – Gênero, Economia e Cidadania Global, membro do Grupo de Estudos em Macroeconomia Ecológica (GEMAECO), membro do Instituto Justiça Fiscal (IJF), membro fundadora do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD) e parte do Conselho Técnico-Científico da mesma instituição.

Referências

HICKEL, Jason; SCHNEIDER, Colleen; OLK, Christopher. How to pay for saving the world: Modern Monetary Theory for a degrowth transition. Ecological Economics, v. 2, n. 4, 2023.

KEYNES, John Maynard. How to Pay for the War. Essays in Persuasion. London: Palgrave Macmillan, 2010, p. 367-439.

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No rio, no mar e na luta

Isabela Prado Callegari

29 de Março de 2019

Ilha de Maré é uma vila de pescadoras e pescadores, em cenário paradisíaco, é resistência cultural, em comunidade quilombola, e é também um complexo industrial, em paisagem distópica. Desde 1960, o porto de Aratu constitui infraestrutura para que cada vez mais empresas extrativistas e poluidoras se instalem na área, acabando com o sustento e a saúde de pescadores, marisqueiros e suas famílias.

A ilha, onde o petróleo literalmente brota do chão, recebe não apenas a prospectação da Petrobras, como a contaminação de vazamentos e da lavagem incorreta de navios e tonéis. Gera também extração de gás e lucros para a Braskem, que nunca é punida por acidentes com explosões, já ocorridos mais de uma vez. Recebe a Candeias Energia, que pretende transformar sua termelétrica na segunda maior da América Latina, em um local onde a configuração dos ventos impede a sua coexistência com a saúde dos moradores. Sofre ainda com o transporte de produtos de forma irregular, que deixa grãos e metais pesados no oceano, e até com resorts onde empresários promovem show imensos, irradiando poluição sonora e impedindo os marisqueiros de trabalharem, por conta de cachorros usados como segurança higienista e privatista da ilha dos ricos.

A infraestrutura do desenvolvimentismo é essa, que promove escoamento para o grande capital, enquanto desestrutura comunidades e gerações inteiras, que emprega e exporta recursos comuns por um lado, enquanto explora, desemprega e mata por vários outros. Aprendi muito com os moradores da ilha, que lutam continuamente e visibilizam sua luta para o mundo. Por não serem submissos ou silenciosos, como o desenvolvimentismo deseja, o grande capital e até os governos ditos progressistas os respondem com a legalidade burguesa: ameaças de prisão e multas impagáveis à Petrobras, governador Rui Costa contestando a decisão de tornar a ilha uma área de proteção ambiental, Braskem promovendo “ações socioambientais” para ensinar os moradores a descartarem lixo corretamente e fazerem pesca sustentável, ao passo em que polui o manguezal, berçário da vida, e contamina as pessoas. Aos moradores, é imposto o alto índice de câncer, problemas neurológicos e respiratórios, baixo aproveitamento escolar, baixo rendimento na pesca e o silenciamento.

Desenvolvimentismo não é desenvolvimento, mas sim um vício em passar por cima de qualquer coisa e qualquer vida, em prol de um objetivo muito específico e, ao mesmo tempo, genérico e raso: o crescimento de produto mensurado em termos monetários. Qualquer produto e qualquer emprego serve, assim como qualquer consequência nefasta é aceita como externalidade ou coisa pra ver depois.

Não é questão de volta ao passado, ou permanecer em paisagens bucólicas. É ser criterioso e demandar um conteúdo para esse desenvolvimento. Demandar um progresso que contemple as pessoas que o movem e o planeta que o abriga. É não aceitar que desenvolvimento, infraestrutura e até mesmo emprego e produto possam ser palavras tão gerais e vazias, capazes de legitimar tranquilamente ecocídios, etnocídios e injustiças diárias.

Segue documentário No Rio e No Mar, onde os moradores falam de sua luta: https://m.youtube.com/watch?v=XpeSNi1gJmA

Que todos gritemos o mesmo grito dos pescadores e pescadoras:

No rio e no mar, pescadores na luta!
Nos açudes ou nas barragens, pescando liberdade!
Hidronegócio, resistir!
Cerca nas águas, derrubar!