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Derivas do capital e o encontro com o solucionismo tecnológico

Artigo publicado na edição de dezembro de 2025 do Jornal dos Economistas (Corecon RJ)

É, de fato, difícil distinguir a nostalgia que cada indivíduo tende a destinar ao próprio passado de uma avaliação concreta acerca de mudanças paradigmáticas nas quais nossa vida particular pode ou não estar inserida. Toda geração costuma achar que o mundo está mudando radicalmente naquelas poucas décadas que são suas, e mais ainda, frente a saltos tecnológicos acelerados e acontecimentos políticos emblemáticos. Mas, para avaliar se tais fatos são evidências de uma transição entre modos de produção em curso, ou se carregam o gérmen de um processo como esse, é necessária a investigação pela razão crítica da maneira mais distanciada possível, alicerçada em categorias coerentes.A

A ideia de que estaríamos entrando em uma fase neofeudal ou tecnofeudal vem sendo defendida por diversos pensadores marxistas, já há mais de uma década, dentre os quais, notadamente, Michael Hudson, Jodi Dean, Cédric Durand e Yanis Varoufakis (HUDSON, 2012; VAROUFAKIS, 2021; DEAN, 2024; DURAND, 2025). Por outro lado, duras críticas a essa interpretação têm sido igualmente difundidas por outros autores da mesma escola de pensamento, sendo Evgeny Morozov o mais vocal dentre eles (PRADO, 2022; MOROZOV, 2023; FOSTER, 2025).

Embora ambos os lados concordem a respeito da centralidade emergente das Big Techs, da influência decisiva das novas tecnologias na sociabilidade contemporânea, e sobre o aumento da importância relativa das finanças (ou do rentismo) em detrimento do investimento produtivo, a controvérsia tem girado em torno do quanto tais características, fortemente representativas dos novos oligopólios da tecnologia, refletem mudanças qualitativas nas leis de movimento do capital – ou seja, na forma como o capital circula e se valoriza – ou, alternativamente, se elas seriam, apenas e precisamente, evidências latentes de que o capitalismo segue vivo, e no ápice de suas contradições internas.

Os defensores da hipótese do neofeudalismo (ou tecnofeudalismo) destacam a ascensão excepcional de rendas sem investimentos produtivos, seja na esfera financeira, seja pelo aumento de meios extraeconômicos de extração de valor, – isto é, aqueles que envolvem influência política direta, despossessão, apropriação de trabalho não pago, violência física, subsídios e bailouts -, em relação à exploração rotineira da mais-valia, constrita às leis de mercado e propriedade. Varoufakis e Hudson destacam as evidências de estagnação econômica prolongada e baixa produtividade, resultantes da falta de concorrência e de investimento produtivo, que derivam, por sua vez, da exorbitante concentração de renda e da oligopolização.

As constantes e reiteradas crises de insuficiência de demanda geradas nessa dinâmica obrigam os governos a intervirem, o que, de acordo com Varoufakis (2021a, 2021b, 2023), a partir de 2008, e mais uma vez, com a pandemia de COVID-19, foi se tornando a regra. Tal fator, combinado à emergência das novas tecnologias e à acumulação primitiva de um novo capital informacional – os dados da população -, ocorrida também nas últimas décadas, pavimentaram o caminho para a consolidação das Big Techs, sendo que a transferência de valor permanente dos Estados para essa nova classe de capitalistas, os claudalistas, considerados um setor estratégico na nova corrida industrial, constituiriam a sua forma principal de acumulação, suplantando a geração de lucro via extração de mais-valia.

Nesse ponto, que concerne tanto a questão das rendas versus lucros (ou ainda, uma discussão teórica sobre a definição de rendas), quanto a ideia de uma superposição cada vez maior entre aquilo que seria eminentemente político e o eminentemente econômico, Morozov (2023) e Foster (2025) apontam corretamente – e ecoando os movimentos feminista, antirracista e anticolonialista -, que tais mecanismos sempre foram a regra. As formas de acumulação primitiva, predação e força direta nunca deixaram de atuar na periferia do capitalismo, pois elas constantemente criam e recriam as condições para que a exploração cotidiana por meio do mercado ocorra. Assim como Marx já mostrava que o capital reproduz não apenas relações capitalistas de exploração, mas também formas não capitalistas de servidão, expressas no contingente de pessoas precarizadas fora da esfera produtiva (DEAN, 2024). Portanto, para além da violência naturalizada contida na propriedade privada dos meios de produção e na apropriação do excedente em si, as facetas econômica (extração de mais-valia) e extraeconômica (políticas, coercitivas, expropriativas) coexistem dentro do capitalismo.

Da mesma forma, a ingerência capitalista na política para a garantia da acumulação de capital é uma consequência da concentração de poder, bem como, a privatização e mercantilização de espaços e instituições que pertenceriam idealmente à esfera do comum é algo constante, não significando, por si só, mudança qualitativa do capitalismo (MOROZOV, 2023). Tampouco os ganhos exacerbados por meio da chamada financeirização parecem novidade, pois, como argumenta Prado (2022), a tendência à dominância financeira no capitalismo já se apresentava desde o final do século XIX, como algo inerente à centralização do capital, cenário no qual ganha relevância o capital portador de juros e a sua proliferação em múltiplas e complexas formas por toda a economia, um processo que atinge um estágio de ápice já na década de 1980, com a desregulamentação financeira global, e muito antes, portanto, do advento das novas tecnologias digitais.

Porém, até que ponto a extensão de contradições internas podem gerar algo qualitativamente distinto? Se até mesmo com relação à passagem histórica do feudalismo para o capitalismo permanece plausível a hipótese de que teriam sido os movimentos intrínsecos do feudalismo que resultaram em um futuro capitalista, como consequência não intencional de interesses feudais (HARMAN & BRENNER, 2006), é também plausível que a excessiva monopolização e financeirização, em conexão com a automação generalizada e a diminuição relativa da importância de mais-valia, possa estar nos encaminhando para um modelo distinto.

Isto é, a dominância financeira é, de fato, conhecida tendência interna do capitalismo, pois afinal transformar capital em mais capital, sem passar pela mercadoria, é o caminho mais bem acabado da acumulação, mas qual é o limite a partir do qual essa contradição produz um modelo que não mais se movimenta primordialmente em torno da extração da mais-valia? Ainda, poder-se-ia argumentar que, a despeito de as tendências contraditórias inerentes a um modo de produção carregarem em si o potencial da transição, as revoluções tecnológicas desempenham papel fundamental em catalisar essa transformação, fornecendo as condições materiais necessárias à reorganização de um movimento exponencialmente disfuncional.

Assim, o centro do debate se encontra, primordialmente, não nas leis de movimento do capital, mas na investigação das novas tecnologias digitais em termos de suas implicações sobre a forma mercadoria, a forma trabalho e, consequentemente, para a nossa sociabilidade e organização produtiva. Ou seja, são esses dois elementos, mercadoria e trabalho, que constituem o eixo em torno do qual o capital orbita, em maior ou menor contradição, não havendo transformação efetiva até que a mutação ou deslocamento desse eixo ocorra, ou que novos eixos surjam. Desde tal perspectiva, conclui-se que, ao contrário de serem apenas um novo serviço ou uma simples adição tecnológica, as mudanças extremamente aceleradas trazidas pelas digitalização da vida se revelam como substantivas para as categorias citadas, corroborando a hipótese de que estamos em um período de transição, no qual capitalismo e tecnofeudalismo coexistem.

Com a automação generalizada da produção de mercadorias e custos marginais decrescentes, a tendência enunciada por Marx de aumento da composição orgânica do capital e diminuição relativa da mais-valia nesse setor chega ao extremo, e é na arena dos serviços onde o contingente de trabalhadores precarizados é jogado, intensificando-se aí a extração da mais-valia absoluta e relativa, por meio da uberização, desregulamentação do trabalho enquanto tal e gameficação. Passam a coabitar nessa esfera categorias de prestadores de serviços baratos, como os de aplicativos de transporte e entregas, e outra de trabalhadores jovens, majoritariamente de países periféricos, seduzidos a ganhar em dólares, para treinarem as inteligências artificiais que progressivamente substituem o trabalho humano. Gradualmente, a automação tende a se generalizar também no setor de serviços, haja vista que entrevistas de emprego, artigos, notícias e livros já são realizados por inteligências artificiais, e carros automatizados estão sendo testados para substituir motoristas.

Em paralelo a isso, cria-se um novo tipo específico de mercadoria, de trabalho e de valor, pela comodificação de dados. Aquilo que já existia ou era espontaneamente criado, em todo lugar, a todo momento, cujo valor era atribuído apenas pelo indivíduo e sua coletividade próxima, é agora passível de apropriação contínua e de valor mercantil. Com a invenção do espaço digital e incentivos direcionados pelo algoritmo, um processo similar ao da comodificação da natureza ocorre, mas em um novo espaço etéreo, livre para aqueles que o colonizaram primeiro, o que diminui as constrições físicas anteriores e amplia enormemente as possibilidades de acumulação – apesar de a limitação última da nuvem seguir sendo imposta pela sua demanda energética exorbitante (REHAK, 2024; TOM’S HADWARE, 2024; THE INTERCEPT, 2025).

Se toda a nossa vida puder ser reconceptualizada como uma série de informações e dados, tudo está passível de ser comodificado e apropriado pelos claudalistas, em um fluxo contínuo e não mais em uma disputa em torno de um estoque fixo. Ainda, a produção de informações e dados pela mera existência humana contém trabalho (e tempo) mas não se reduz a isso, conformando, portanto, um novo tipo específico dessa categoria, diferente do trabalho que ocorre no processo produtivo. Por fim, esta arena tende a se expandir, em formas ainda desconhecidas, a medida em que mais trabalhadores são expulsos do circuito da mais-valia, e recorrem à intensificação mercantil de seus próprios dados. Tanto capitalistas quanto trabalhadores se tornam classes subordinadas aos claudalistas, que cobram de todos uma taxa para o acesso àquele que passa a ser o espaço social por excelência. Assim como o capitalismo socializou a produção ao mesmo tempo em que a privatizou, o tecnofeudalismo socializou ao extremo o espaço de interação e o manteve sob seu domínio.

Portanto, longe de ser uma interpretação que ignora o poder destrutivo e vigente do capitalismo, a avaliação de que estamos em um momento de transição no qual ocorre uma reconfiguração do capital, em superposição à ascensão de uma nova classe, um novo espaço de sociabilidade e novas formas de exploração, nos fornece maior precisão para direcionar nossos esforços. Em que pese a discordância com relação à hipótese tecnofeudal, é Morozov (2013) quem corretamente nos mostra a necessidade de lutar contra o solucionismo tecnológico, uma tecnoeuforia acrítica, que teve papel ideológico importante em legitimar socialmente os devaneios do Vale do Silício até aqui. A recusa da ideia antropocêntrica da tecnologia como algo neutro e amoral, que pode ser moldado livremente, e a construção de uma ética tecnológica, calcada na coletividade, e nos princípios da precaução e da suficiência ecológica, precisam ser elementos constitutivos da luta anticapitalista no século XXI.

Referências

DEAN, Jodi. Becoming Neofeudal: changing laws of motion on the social manor. Palestra apresentada no evento “Neofeudalism?”, The Chicago Center for Contemporary Theory, 07 de junho de 2024. Disponível em: https://youtu.be/iV6r1Ia1raQ. DURAND

DURAND, Cédric. Para escapar do tecnofeudalismo. Outras Palavras, 06 de fevereiro de 2025. Disponível em: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/para-escapar-do-tecnofeudalismo/.

FOSTER, John Bellamy. Techno-feudalism is a myth: John Bellamy Foster on capitalism, MAGA, and China. MR Online, 26 out. 2025. Disponível em: https://mronline.org/2025/10/26/techno-feudalism-is-a-myth-john-bellamy-foster-on-capitalism-maga-and-china/.

HARMAN, Chris; BRENNER, Robert. The origins of capitalism. International Socialism, n. 111, Summer 2006. Disponível em: https://isj.org.uk/the-origins-of-capitalism/.

HUDSON, Michael. The Road to Debt Deflation, Debt Peonage, and Neofeudalism. Levy Economics Institute of Bard College, 2012. (Working Paper, n. 708). Disponível em: http://www.levyinstitute.org.

MOROZOV, Evgeny. Tecnofeudalismo – ou o capitalismo de sempre? Outras Palavras, 4 out. 2023. Disponível em: https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/tecnofeudalismo-ou-o-capitalismo-de-sempre/

MOROZOV, Evgeny. To save everything, click here: the folly of technological solutionism. New York: Public Affairs, 2013.

VAROUFAKIS, Yanis. A hipótese do tecnofeudalismo. Outras Palavras, 5 out. 2023. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/a-hipotese-do-tecnofeudalismo/

VAROUFAKIS, Yanis. Yanis Varoufakis on Techno-feudalism. The Crypto Syllabus, 05 nov. 2021. Disponível em: https://the-crypto-syllabus.com/yanis-varoufakis-on-techno-feudalism/

VAROUFAKIS, Yanis. O tecno-feudalismo está substituindo o capitalismo de mercado? Project Syndicate, 11 jun. 2021. Disponível em: https://www.project-syndicate.org/commentary/techno-feudalism-replacing-market-capitalism-by-yanis-varoufakis-2021-06

PRADO, Eleutério. Crítica da desrazão neofeudal. Outras Palavras, 16 de setembro de 2022. Disponível em: https://outraspalavras.net/pos-capitalismo/critica-da-desrazao-neofeudal/

REHAK, Rainer. On the (im)possibility of sustainable artificial intelligence. Internet Policy Review, 30 de setembro de 2024

THE INTERCEPT BRASIL. Ceará libera ponte para data center de TikTok em área protegida. The Intercept Brasil, 27 out. 2025. Disponível em: https://www.intercept.com.br/2025/10/27/ceara-libera-ponte-para-data-center-de-tiktok-em-area-protegida/

TOM’S HARDWARE. OpenAI’s colossal AI data center targets would consume as much electricity as entire nation of India — 250GW target would require 30 million GPUs annually to ensure continuous operation, emit twice as much carbon dioxide as ExxonMobil. Tom’s Hardware, 2024. Disponível em: https://www.tomshardware.com/tech-industry/artificial-intelligence/openais-colossal-ai-data-center-targets-would-consume-as-much-electricity-as-entire-nation-of-india-250gw-target-would-require-30-million-gpus-annually-to-ensure-continuous-operation-emit-twice-as-much-carbon-dioxide-as-exxonmobil

UOL. China entrega exército de robôs humanóides para trabalho 24h em fábricas. Notícias UOL, 16 de novembro de 2025. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2025/11/16/china-entrega-exercito-de-robos-humanoides-para-trabalho-24h-em-fabricas.htm.

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