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Em cada um a vida inteira. Cada um para a vida inteira¹.

Artigo publicado em espanhol na Revista Ocote, em Outubro de 2025.

“Tudo para todos, todos para tudo (…) todos sois camaradas, todos sois da mesma família” (GORKI, 2013, p. 333). A frase do célebre romance A Mãe, de Máximo Gorki, descreve o instante em que a protagonista, Pelagueia Nilovna, transcende definitivamente da condição de dona de casa – amedrontada e resignada -, que ajudava o filho a distribuir panfletos socialistas, apenas por amor materno. Nesse momento, ela se torna uma militante movida por sua própria convicção em uma sociedade justa e livre de misérias. Simbolicamente, Pelagueia, mulher comum que toma consciência política, é A Mãe, capaz de parir uma revolução.
A citação de Gorki pode ter diversas interpretações, mas fica evidente a ideia de socialização dos frutos do trabalho e, portanto, da responsabilização coletiva de todo o trabalho. Para que tudo seja para todos, para uma vida com espaço e possibilidade para o exercício intelectual, o fazer político, a sociabilidade, o trabalho nas suas variadas formas, o lazer e a cultura, todos devem estar para tudo. O coletivo deve se responsabilizar não só pela produção de bens e serviços, mas pela manutenção da vida cotidiana.
Cerca de 60 anos antes, em União Operária, Flora Tristán, precursora do Feminismo Socialista, denunciava a condição da mulher como propriedade privada do homem, sem autonomia nem direitos plenos, dependente financeiramente, subjugada à violência e realizando o trabalho doméstico, de forma invisível e não remunerada. Daí surge a famosa síntese, cara a essa corrente feminista, “a mulher é a proletária do proletário”.
O chamado trabalho reprodutivo refere-se ao conjunto de atividades necessárias para sustentar a vida humana e, portanto, para viabilizar o trabalho produtivo. Em grande parte não remunerado, ele inclui cuidados com os dependentes, manutenção do lar e outras tarefas cotidianas. O conceito foi elaborado por feministas nos anos 1960/1970  para destacar a centralidade desse trabalho na reprodução do capitalismo. Já o que se denomina hoje trabalho de cuidados é um termo semelhante, mas com menos conteúdo político, e que, talvez por isso mesmo, foi ganhando espaço no debate público nos últimos anos².
Uma crítica fundamental da Economia Feminista diz respeito à separação artificial estabelecida no capitalismo entre produção e reprodução, construída historicamente para desvalorizar e ocultar o trabalho realizado majoritariamente por mulheres. De fato, trabalho reprodutivo é também produtivo, mas invisibilizado, desvalorizado e, muitas vezes, não remunerado. 
Hoje, quase 2 séculos após os escritos de Tristán sobre a situação das mulheres, apesar de avanços formais significativos, o cenário ainda é de desigualdade profunda, afetando especialmente mulheres pretas, pardas, indígenas, quilombolas e periféricas. Dados da OIT (2018) mostram que, no mundo, cerca de 16 bilhões de horas diárias são dedicadas ao trabalho doméstico não remunerado — o equivalente a 2 bilhões de pessoas trabalhando oito horas por dia sem salário. Se essa atividade fosse remunerada a um salário global médio, equivaleria a até 9% do PIB. Dentre os que realizam esse trabalho, 76% são mulheres. E na América Latina e Caribe, mulheres dedicam em média 37 horas semanais a esse trabalho, enquanto homens, apenas 15 (CEPAL, 2021).
Ainda, cerca de 708 milhões de mulheres em todo o mundo estão fora do mercado de trabalho devido a atividades reprodutivas não remuneradas (ILO, 2024). Na região, 70% do trabalho de cuidados remunerado é informal, sem direitos trabalhistas ou previdenciários (OXFAM, 2020), 93% dos trabalhadores são mulheres (UN WOMEN, 2020), e no Brasil, por exemplo, 70% dessas são mulheres racializadas (IPEA, 2022).
A pandemia explicitou que o tempo, a saúde e a renda das mulheres são variáveis de ajuste que sustentam o capitalismo, apoiado em bases patriarcais. Assim, desde 2020, ganhou força mundialmente a demanda pela criação de Sistemas Integrais de Cuidados, sendo que diversos países da região se comprometeram a isso, pelo Compromisso de Buenos Aires, na XV Conferência sobre a Mulher da América Latina e do Caribe, em 2022 (CEPAL, 2022).
Um Sistema Integral de Cuidados é um modelo de política pública que organiza e regula serviços, tempo e recursos para atender pessoas em situação de dependência (crianças, idosos, pessoas com deficiência ou doentes). Reconhece o cuidado como infraestrutura essencial, tal qual estradas, energia ou saneamento, e busca valorizar e redistribuir esse trabalho, garantindo proteção social e renda a quem o realiza.

Esse tipo de sistema inclui a ampliação e qualificação de creches, centros-dia e lares de idosos; formação e remuneração de cuidadores domiciliares; licenças parentais mais equitativas; incentivo à corresponsabilidade; formalização do trabalho de cuidado; e coordenação entre setores e níveis de governo. Trata-se de uma abordagem que redefine a noção de justiça econômica, incluindo não só renda e riqueza, mas também tempo, responsabilidades e poder decisório sobre a vida coletiva.
O debate, pautado há décadas pelo feminismo, vem agora à tona porque as contradições do modelo patriarcal-capitalista revelam, progressivamente, suas disfuncionalidades. Uma sociedade marcada por precarização, informalidade, desmonte das políticas sociais, risco de desemprego em massa pela automação, cataclisma ambiental e envelhecimento populacional, encontra sua maior ameaça em sua própria organização social, voltada ao lucro privado e não à manutenção da vida.

Diante disso, os Sistemas de Cuidados aparecem como resposta reformista frente ao colapso. Contudo, se forem implementados de forma privatizada, mercantilizada, com baixa qualidade ou mantendo a sobrecarga sobre as mulheres, serão apenas uma repaginação da exploração. A desvalorização do trabalho reprodutivo objetiva justamente ocultar o imenso poder político que ele carrega. Que, como Nilovna, saibamos subverter a invisibilidade para ocuparmos o poder que nos cabe. Que sejamos todas mães da revolução.

¹Esse trecho é uma continuação da citação de Gorki, criada pelo tradutor do livro na versão em português, GORKI (2013).

² Existe também alguma diferença na abrangência dos termos. Trabalho reprodutivo se refere a gestação, tarefas domésticas (pagas ou não) e cuidados diretos e indiretos, enquanto trabalho de cuidados, inicialmente restrito ao cuidado direto, foi ampliado e hoje se sobrepõe ao reprodutivo. O risco é que, por ser um termo menos politizado, a ideia de Cuidados passe a incluir vários setores da economia acabe invisibilizando novamente as mulheres.



Referências


CEPAL. Compromiso de Buenos Aires sobre políticas de cuidado: Un paso hacia la sociedad del cuidado. XV Conferencia Regional sobre la Mujer de América Latina y el Caribe. Buenos Aires: CEPAL, 2022. Disponível em: https://www.cepal.org/es/publicaciones/48239.

CEPAL. La autonomía económica de las mujeres en América Latina y el Caribe. Santiago: CEPAL, 2021. Disponível em: https://www.cepal.org/es/publicaciones/46829.
CEPAL. La sociedad del cuidado: horizonte para una recuperación sostenible con igualdad de género. Santiago: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, 2022. Disponível em: https://www.cepal.org/es/publicaciones/48292. 
GORKI, Máximo. A Mãe. Tradução de Augusto de Lacerda e S. Persky. 2013 (Edição Digital). 1907 (1a Edição). Disponível em: https://www.agr-tc.pt.
IPEA. Indicadores de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados. Brasília: IPEA, 2022. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/portal/retrato/indicadores/trabalho-domestico-e-de-cuidados-nao-remunerado/apresentacao.
INTERNATIONAL LABOUR ORGANIZATION (ILO). Unpaid care work prevents 708 million women from participating in the labour market. 2024. Disponível em: https://www.ilo.org/resource/news/unpaid-care-work-prevents-708-million-women-participating-labour-market.
OIT. El trabajo de cuidados y los trabajadores del cuidado para un futuro con trabajo decente. Genebra: Organização Internacional do Trabalho, 2018. Disponível em: https://www.ilo.org/global/publications/books/WCMS_633135/lang–es/index.htm.
ONU Mujeres. El trabajo de cuidados y las trabajadoras del hogar en América Latina y el Caribe: hacia el reconocimiento del aporte a la economía. ONU Mulheres América Latina e Caribe, 2021. Disponível em: https://lac.unwomen.org. Acesso em: 22 set. 2025.
OXFAM. Time to Care: Unpaid and underpaid care work and the global inequality crisis. Oxford: Oxfam International, 2020. Disponível em: https://policy-practice.oxfam.org/resources/time-to-care-620928.
TRISTÁN, Flora. União Operária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2016. 184 p.
UN WOMEN – Regional Office for Latin America and the Caribbean. Paid domestic workers in Latin America and the Caribbean. 2020. Disponível em: https://lac.unwomen.org/en/noticias-y-eventos/articulos/2020/06/trabajadoras-remuneradas-del-hogar-en-america-latina-y-el-caribe-covid-19.

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